{"id":10342,"date":"2016-02-15T02:25:05","date_gmt":"2016-02-15T04:25:05","guid":{"rendered":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=10342"},"modified":"2016-02-15T03:17:29","modified_gmt":"2016-02-15T05:17:29","slug":"cronica-no-cemiterio-os-mortos-nos-ensinam-o-que-e-viver","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=10342","title":{"rendered":"CR\u00d4NICA &#8211; NO CEMIT\u00c9RIO, OS MORTOS NOS ENSINAM O QUE \u00c9 VIVER"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10345\" src=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Cemit\u00e9rio-1.jpg\" alt=\"Cemit\u00e9rio\" width=\"636\" height=\"395\" srcset=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Cemit\u00e9rio-1.jpg 636w, http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Cemit\u00e9rio-1-300x186.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 636px) 100vw, 636px\" \/><\/p>\n<p>Onde est\u00e1vamos antes de nascer? Para onde vamos quando morremos? Ambas as d\u00favidas s\u00e3o irrespond\u00edveis do ponto de vista filos\u00f3fico ou metaf\u00edsico, mas do ponto de vista biol\u00f3gico e cient\u00edfico a resposta \u00e9 facilmente comprov\u00e1vel. Basta ver o que acontece com o nosso corpo e isto vale para todos os integrantes do reino animal. A perspectiva religiosa, por se tratar do territ\u00f3rio da cren\u00e7a, est\u00e1 fora de cogita\u00e7\u00e3o neste breve ensaio, embora vislumbrada com respeitosa rever\u00eancia.<\/p>\n<p>Toco nesse assunto porque neste domingo, por volta do meio dia, quando milh\u00f5es de pessoas se preparavam para o almo\u00e7o, sob um sol impiedoso, estava eu num cemit\u00e9rio, num cortejo f\u00fanebre. Aproveitei para visitar [a palavra soa estranha aqui, mas tem significado profundo] o t\u00famulo dos meus antepassados, incluindo pai e m\u00e3e, diante do qual permaneci em sil\u00eancio por alguns minutos, com a cabe\u00e7a cheia de recorda\u00e7\u00f5es, sobretudo relacionadas com os almo\u00e7os de domingo, em que toda a fam\u00edlia se reunia para saborear deliciosos pratos da cozinha italiana elaborados com o mais sincero amor de m\u00e3e.<\/p>\n<p>Entrara antes de o caix\u00e3o chegar sobre uma maca de ferro e pneus de borracha e fui observando atentamente as mensagens saudosas, as fotografias, as datas de nascimento e morte. Verifiquei que h\u00e1 crian\u00e7as que vivem apenas ef\u00eameros dias, outros chegam por volta de um centen\u00e1rio de vida e at\u00e9 ultrapassam esse tempo. E que se morre de v\u00e1rias causas, at\u00e9 se engasgando com um peda\u00e7o de p\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa rua \u00e0 esquerda da entrada principal havia o t\u00famulo de uma mulher, lembro-me apenas do sobrenome Expedita, cheio de oferendas, muitas imagens de santos, algumas maiores, de Nossa Senhora Aparecida, e agradecimentos pela gra\u00e7a recebida. Aparentemente, parece se tratar de milagres, curas ou algo do g\u00eanero. Mas a maioria absoluta dos t\u00famulos era mais despojada, comunicando apenas o sobrenome das fam\u00edlias, fotos dos falecidos, mensagens de amor de uma m\u00e3e por uma filha, de uma filha para o pai e tantas outras sutilezas da alma humana em tentar superar a ideia da morte por meio de palavras condutoras de sentimentos.<\/p>\n<p>Duas coisas me chamaram a aten\u00e7\u00e3o de forma marcante: os vivos que estavam no cortejo e que h\u00e1 pouco ainda velavam o copo do parente e amigo morto e o impacto ululante que o cemit\u00e9rio, que \u00e9 propriedade dos mortos, possa nos ensinar tanto sobre os vivos.<\/p>\n<p>Como me sentia sereno e receptivo \u00e0s li\u00e7\u00f5es que me iam sendo dadas a mancheias pensei em voz alta: \u201cMinha cabe\u00e7a liter\u00e1ria est\u00e1 em torvelinho neste momento. Mir\u00edades de formas fazem-me cotejar a diferen\u00e7a entre ser e estar vivo e a morte, ali presente. T\u00famulos encimados por anjos protetores, Jesus de bra\u00e7os abertos, \u00a0vasos de flores tombados por causa da dengue e outras doen\u00e7as causadas por um simples mosquito.<\/p>\n<p>Minha mente transformara-se num caleidosc\u00f3pio abrasada pelo calor intenso e, mesmo assim, buscou um remanso filos\u00f3fico, com a mesma necessidade que fez Dante buscar ajuda no amor de Beatrice e na poesia de Virg\u00edlio.<\/p>\n<p>\u201cPor que vivemos de modo t\u00e3o ign\u00f3bil, como se f\u00f4ssemos eternos, nos tornamos mesquinhos, ego\u00edstas, se temos \u2013 todos, sem exce\u00e7\u00e3o \u2013 o mesmo endere\u00e7o final: debaixo da terra, dentro de gavetas de cimento, ou transformados em p\u00f3 pela crema\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que pude perceber que o ser humano est\u00e1 perdido entre a mal\u00edcia e a inoc\u00eancia, pensa e faz muitas bobagens at\u00e9 mesmo sem a menor consci\u00eancia, e que desconhece a si mesmo e \u00e9 levado pela correnteza da vida, dominado pela cegueira, que n\u00e3o percebe que podia \u2013 vi isso claramente \u2013 simplificar tudo vivendo no imenso e poderoso oceano representado por uma pequenina palavra chamada AMOR, que se nutre da vida e, ao mesmo tempo, a mant\u00e9m saud\u00e1vel com sua for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o, liberdade e realiza\u00e7\u00e3o da vida humana. (C.R.)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Onde est\u00e1vamos antes de nascer? Para onde vamos quando morremos? Ambas as d\u00favidas s\u00e3o irrespond\u00edveis do ponto de vista filos\u00f3fico<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10343,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v15.8 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>CR\u00d4NICA - NO CEMIT\u00c9RIO, OS MORTOS NOS ENSINAM O QUE \u00c9 VIVER - Revista Vitrine Online<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=10342\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"CR\u00d4NICA - NO CEMIT\u00c9RIO, OS MORTOS NOS ENSINAM O QUE \u00c9 VIVER - Revista Vitrine Online\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Onde est\u00e1vamos antes de nascer? 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