{"id":2518,"date":"2013-09-15T20:41:23","date_gmt":"2013-09-15T23:41:23","guid":{"rendered":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=2518"},"modified":"2013-09-15T20:41:37","modified_gmt":"2013-09-15T23:41:37","slug":"nem-sempre-tudo-acaba-em-pizza-as-vezes-acabam-com-a-pizza","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=2518","title":{"rendered":"NEM SEMPRE TUDO ACABA EM PIZZA;  \u00c0S VEZES ACABAM COM A PIZZA"},"content":{"rendered":"<p>Sobre a mesa era uma obra de arte visual. O molho vermelho do tomate puro, os fil\u00e9s concentricamente distribu\u00eddos com esmero est\u00e9tico e o disco no ponto certo e sugerindo equil\u00edbrio entre fogo e massa. O sabor indescrit\u00edvel, no tempero preciso, na quentura exata. Basta! Como poderia descrever aquela sensa\u00e7\u00e3o extremamente agrad\u00e1vel dan\u00e7ando na minha boca e fazendo a alegria das papilas que pareciam comemorar um carnaval? \u00c1gua na boca s\u00f3 de recordar!<!--more--><\/p>\n<p>O vinho da casa servido em jarra sinuosa quase at\u00e9 a boca. E descia suave como a pena de um passarinho que se solta em pleno voo. Fazia quest\u00e3o de servir minha companheira, mulher gentil e amorosa, com a delicadeza requerida e ela que me ensinou olhar nos olhos quando se d\u00e1 o primeiro gole do vinho.<\/p>\n<p>L\u00e1 no fundo estava o homem manobrando com per\u00edcia e eleg\u00e2ncia a boca do forno com sua p\u00e1 de cabo longo. Vestia um avental impecavelmente alvo e um chapel\u00e3o que se dobrava na ponta. De vez em quando virava para os fregueses sentados nas v\u00e1rias mesas do t\u00e9rreo, porque havia ainda o piso superior, para quem queria namorar, pegar nas m\u00e3os, dizer palavras melosas, \u00e0s vezes um beijo de amante enternecido no rosto da amada.<\/p>\n<p>Primeiro, ent\u00e3o, era o espet\u00e1culo visual, segundo o perfume gostoso t\u00edpico e fumegante. O prazer de comer antecipado. O modo como os gar\u00e7ons serviam, todos com longa carreira na casa, a maioria dos clientes j\u00e1 conhecidos pelos nomes. Est\u00e1vamos num casar\u00e3o familiar e havia sempre crian\u00e7as com os pais.<\/p>\n<p>Agora, a primeira garfada e o primeiro peda\u00e7o. Huuuummmm! Irresist\u00edvel! Saboroso. Leve. Crocante. Tudo no ponto certo! Um gole, secar a boca com o guardanapo de linho; outro peda\u00e7o e assim por diante. S\u00f3 um pormenor: o preparador sabia dominar o grande segredo do aliche, um peixinho t\u00edpico do Mediterr\u00e2neo. Lavava fil\u00e9 por fil\u00e9 em \u00e1gua corrente para tirar o excesso de sal, o que poucos fazem, e \u00e9 o que mant\u00e9m o sabor carregado at\u00e9 um leve amargo, por puro desconhecimento dessa pequena provid\u00eancia que, al\u00e9m de tudo, n\u00e3o sobrecarrega o corpo de s\u00f3dio. Uma vez fui cumprimentar o autor daquela obra de arte e ele, paciente e simp\u00e1tico, explicou todos os procedimentos que aprendi e, sempre que posso, tento repassar a outras casas do g\u00eanero. Mas poucos ouvem porque est\u00e1 disseminado o h\u00e1bito de salgar os alimentos, alguns que nem precisariam levar sal, como a carne de frango, que j\u00e1 \u00e9 naturamente salgada. Mas isso n\u00e3o tem nada a ver com nosso tema principal.<\/p>\n<p>S\u00f3 resolvi escrever essas linhas porque minha mulher e eu nunca comemos pizza de aliche t\u00e3o boa quanto aquela. H\u00e1 algumas casas que chegam perto, mas falham na dessalga, mas n\u00e3o como aquela. Era servida num restaurante-pizzaria situado na regi\u00e3o do Ibirapuera, na Rua Ab\u00edlio Soares, chamado Capuchinho, cujas instala\u00e7\u00f5es vieram abaixo para dar lugar a um novo edif\u00edcio. Se n\u00e3o tivesse acontecido isso, recomendaria para todos os leitores essa rara experi\u00eancia culin\u00e1ria em meio a milhares de pizzarias que existem em todo canto. E dizem que no Brasil pol\u00edtico tudo termina em pizza. Nesse caso, foi o contr\u00e1rio. Acabaram com a melhor pizza de aliche de S\u00e3o Paulo. <strong>(C.R.)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre a mesa era uma obra de arte visual. 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