{"id":26458,"date":"2022-01-16T10:59:03","date_gmt":"2022-01-16T13:59:03","guid":{"rendered":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=26458"},"modified":"2022-01-16T11:44:26","modified_gmt":"2022-01-16T14:44:26","slug":"cenas-reais-em-um-pronto-socorro-ou-cronica-de-uma-morte-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=26458","title":{"rendered":"CENAS [REAIS] EM UM PRONTO SOCORRO OU CR\u00d4NICA DE UMA MORTE ANUNCIADA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\"><strong>O relato que se segue \u00e9 resultado daquilo que meus olhos viram e meus ouvidos escutaram nas duas horas em que permaneci, a contragosto, no interior de um agitado pronto socorro municipal [sistema SUS] localizado ao lado e no in\u00edcio da Rodovia Raposo Tavares em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o vou fazer refer\u00eancia ao motivo que me levou a interromper abruptamente minha viagem de volta para Ibi\u00fana e me obrigou a fazer um atalho e dirigir apressado para a porta de entrada de emerg\u00eancia, localizada em outra ala \u00e0 do atendimento de rotina para diversas doen\u00e7as, incluindo problemas respirat\u00f3rios, pois uma nova onda da covid-19 promovida pela variante \u00f4micron se espalha de modo explosivo pelo Brasil.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antecipo, para aqueles que possam esperar uma saraivada de cr\u00edticas ao mal atendimento hospitalar ao qual est\u00e3o habituados, que isso n\u00e3o ocorrer\u00e1, pois nenhum motivo houve para formular alguma queixa ou alimentar um silencioso rancor por algum comportamento funcional desrespeitoso. Nada disso aconteceu. O atendimento foi r\u00e1pido, preciso, e feito por uma equipe experiente em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, embora tenha seu limite como se verificar\u00e1 pela ocorr\u00eancia principal que resolvi relatar porque diz respeito \u00e0 uma rotina de viol\u00eancia que assola n\u00e3o apenas a capital do maior estado brasileiro mas, enfim, todo o Pa\u00eds assolado por dramas sociais que desembocam na trag\u00e9dia envolvendo jovens e seus confrontos com a pol\u00edcia em cenas do cotidiano como a que aconteceu na tarde deste s\u00e1bado. M\u00e9dicos e enfermeiros n\u00e3o realizam milagres, embora atuem como se isso fosse poss\u00edvel pela not\u00e1vel dedica\u00e7\u00e3o que observei e pela qual agradeci aos recepcionistas, enfermeiros e enfermeiras e ao m\u00e9dico do meu atendimento. Talvez deva usar a linguagem de um roteiro cinematogr\u00e1fico para facilitar a narrativa. O resto cabe a voc\u00ea leitor(a), se \u00e9 que vai enfrentar o desafio de ler muito mais do que apenas o t\u00edtulo e, a partir da\u00ed, concluir por conta pr\u00f3pria e superficial o que de fato ter\u00e1 ocorrido no emaranhado de d\u00favidas que se manteve em mim porque, sem ter o dom da ubiquidade, n\u00e3o vi com meus pr\u00f3prios olhos a cena de um confronto ocorrido momentos antes no bairro do Morumbi onde, soube, por relatos indiretos, que tr\u00eas jovens dom idades em torno de 20 anos ter\u00e3o tido um confronto com policiais militares durante um assalto. Os tr\u00eas jovens foram baleados: um recebeu um tiro no meio do peito e os outros dois nas pernas, pois algemados eram levados por policiais de uma sala a outra e notoriamente mancando. Um deles chorou e me disseram que era porque seu amigo acabara de morrer, pois n\u00e3o resistira ao ferimento a bala. Muito jovem. Por isso, a certa altura, vi um homem tamb\u00e9m jovem falando ao telefone e chorando sem parar pr\u00f3ximo a uma mulher que segurava na m\u00e3o um capacete de motocicleta e igualmente vertia l\u00e1grimas. Supus, sem comprova\u00e7\u00e3o, que se tratava da m\u00e3e e de um parente do jovem morto.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CENA 1<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pego a Rodovia Raposo Tavares em dire\u00e7\u00e3o a Ibi\u00fana. Nesta altura, j\u00e1 havia decidido entrar no pronto socorro porque a pessoa que me acompanhava sofria fortes dores, pois, por um desses fatos t\u00e3o inesperados quanto acidentais, acabara de fechar a porta do carro na ponta de seu dedo anular que, conforme revelou um raio-X havia se quebrado. O m\u00e9dico em pessoa fez um furo com uma agulha hipod\u00e9rmica na unha para fazer o sangue vazar, receitou profenid, logo aplicado, e indicou um analg\u00e9sico em caso de dor.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas, quando deixei a rodovia e peguei uma descida marginal para entrar na \u00e1rea do pronto socorro, duas ambul\u00e2ncias de resgate do corpo de bombeiros com sirenes abertas acabavam de entrar e certamente pensei \u2018caramba vamos ter problemas\u2019 de atendimento, afinal a cena revelava uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. Logo vi os bombeiros carregarem a v\u00edtima coberta por uma manta t\u00e9rmica de alum\u00ednio em uma maca de socorro. Imediatamente entraram na sala de emerg\u00eancia e ali desaparecerem. Havia diversos policiais militares que se mostravam agitados. Mais tarde verifiquei que faziam parte da ocorr\u00eancia, talvez uns dez ou quinze. Al\u00e9m da v\u00edtima em emerg\u00eancia havia dois outros rapazes feridos, algemados, que eles levavam de uma sala a outra para serem atendidos pelos m\u00e9dicos e enfermeiros. O ambiente estava duplamente agitado, pelos pacientes que aguardavam atendimento, alguns notoriamente com problemas respirat\u00f3rios, sendo logo encaminhados para procedimentos r\u00e1pidos e pela ocorr\u00eancia policial.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CENA 2<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estava ali aguardando o que determinava a realidade do atendimento e vi que os profissionais da sa\u00fade se mostravam experientes e&nbsp; pr\u00e1ticos, bastante calmos e precisos, incluindo o profissional do raio-X que logo fez seu servi\u00e7o, entregou o pedido m\u00e9dico com o filme revelado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nesse momento de espera, a porta da emerg\u00eancia se entreabriu e pude, por alguns breves segundos, ver que o jovem vitimado por um tiro no peito estava sendo submetido a massagens card\u00edacas, pois, supus, estava em parada cardiorrespirat\u00f3ria. Vi que seu peito na altura do cora\u00e7\u00e3o era comprimido com vigor mas, infelizmente, como vim a saber pouco tempo depois, o jovem tinha ido a \u00f3bito, como se diz no ambiente de emerg\u00eancia. Seu corpo foi removido dali com uma discri\u00e7\u00e3o inacredit\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que mais me impressionou foi a velocidade como o pessoal da limpeza removeu o sangue da maca e do ch\u00e3o. Minutos depois algu\u00e9m que entrasse ali jamais poderia supor o que havia acontecido de modo dram\u00e1tico. A maca foi remontada para estar pronta para o pr\u00f3ximo atendimento, pois a situa\u00e7\u00e3o de um pronto socorro \u00e9 naturalmente imprevis\u00edvel. Uma luta contra o tempo. Cenas tristes ocorrem ali com uma frequ\u00eancia tormentosa. A equipe da emerg\u00eancia sabe se recompor por experi\u00eancia e se manter em prontid\u00e3o. E esses profissionais s\u00e3o como anjos, sobretudo para aqueles que vencem ali, devidamente assistidos, entram com intensos desconfortos psicof\u00edsicos e, mais tarde, saem recuperados dos sustos, das dores e dos medos. O ambiente de um pronto socorro, por si s\u00f3, \u00e9 motivo de intensas mudan\u00e7as emocionais seja por parte dos pacientes quanto de seus familiares.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CENA 3 \u2013 FINAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esta cena n\u00e3o se comp\u00f5e de fatos objetivos, como os relatados acima, mas de uma intensa atividade subjetiva, decorrente dos efeitos dos fatos observados. O lugar, um pronto socorro, com suas portas de entrada, atendentes na recep\u00e7\u00e3o (de rotina e de emerg\u00eancia), os personagens que surgem do nada, pacientes trazidos por familiares, vizinhos, em carros de policiais ou de bombeiros, ambul\u00e2ncias. Trata-se de um lugar m\u00e1gico, de um ponto de vista da capacidade humana de lidar com situa\u00e7\u00f5es inesperadas e prementes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>No caso que mais nos chamou a aten\u00e7\u00e3o est\u00e3o envolvidos, al\u00e9m obviamente dos profissionais da sa\u00fade, cidad\u00e3os, houve um conflito entre tr\u00eas jovens \u2013 por que eles n\u00e3o estariam curtindo uma tarde calma com seus familiares, ou com as suas namoradas, ou participando de uma partida de futebol, ou&#8230; Por que tiveram esse tr\u00e1gico encontro com v\u00e1rios policiais de servi\u00e7o e pronto para fazer cumprir as fun\u00e7\u00f5es para as quais foram treinados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00e3o, uns e outros, faces da mesma moeda e integrantes de uma sociedade muito longe do que se poderia considerar de normalidade. N\u00e3o! Aparentemente s\u00e3o v\u00edtimas de uma realidade impiedosa e promotora de viol\u00eancias que se reproduzem, assim como os personagens se reproduzem e se sucedem como os produtos que s\u00e3o repostos nas prateleiras dos supermercados. Tiram uns e entram outros, numa guerra sem fim e sem tempo para acabar. Os personagens, \u00e9 lament\u00e1vel dizer, n\u00e3o controlam seus pap\u00e9is, mas s\u00e3o controlados por for\u00e7as que est\u00e3o muito al\u00e9m de suas compet\u00eancias culturais. S\u00e3o, me permitam escrever, v\u00edtimas de um sistema avassalador, injusto e tristemente verdadeiro. Essa realidade fria e triste \u00e0s vezes podemos testemunh\u00e1-la por imperativos que n\u00e3o dependem de nossas vontades e sim dos acontecimentos que envolvem, mesmo que n\u00e3o os queiramos. E aos quais estamos sujeitos, ricos ou pobres, s\u00e1bios ou ignorantes, jovens ou idosos. Em suma, porque \u00e9 preciso finalizar essa hist\u00f3ria, todos os personagens envolvidos, quer queiram ou n\u00e3o, saibam ou n\u00e3o, ter\u00e3o o mesmo fim. O acerto de contas \u00e9 individual e uma quest\u00e3o de tempo. &nbsp;(C.R.)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O relato que se segue \u00e9 resultado daquilo que meus olhos viram e meus ouvidos escutaram nas duas horas em<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":26459,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v15.8 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>CENAS [REAIS] EM UM PRONTO SOCORRO OU CR\u00d4NICA DE UMA MORTE ANUNCIADA - Revista Vitrine Online<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=26458\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"CENAS [REAIS] EM UM PRONTO SOCORRO OU CR\u00d4NICA DE UMA MORTE ANUNCIADA - 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Trabalhou em ve\\u00edculos de comunica\\u00e7\\u00e3o nas fun\\u00e7\\u00f5es de rep\\u00f3rter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Di\\u00e1rio Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, vers\\u00e3o imprensa, de S\\u00e3o Paulo para Ibi\\u00fana h\\u00e1 alguns anos, iniciou uma nova experi\\u00eancia profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajet\\u00f3ria bem-sucedida na grande imprensa brasileira. 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