{"id":27699,"date":"2022-09-04T18:20:03","date_gmt":"2022-09-04T21:20:03","guid":{"rendered":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=27699"},"modified":"2022-09-04T21:50:28","modified_gmt":"2022-09-05T00:50:28","slug":"persona-aos-112-anos-ex-escravo-parana-revela-segredos-de-uma-longa-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=27699","title":{"rendered":"PERSONA \u2013 AOS 112 ANOS, EX-ESCRAVO, PARAN\u00c1 REVELA SEGREDOS DE UMA LONGA VIDA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\"><strong>\u201cA felicidade n\u00e3o \u00e9 dinheiro, n\u00e3o \u00e9 propriedade, n\u00e3o \u00e9 um bem que se adquire. N\u00e3o \u00e9 nada disso! Falo isso por experi\u00eancia pr\u00f3pria. Quando tinha dinheiro, propriedades, n\u00e3o era feliz. Hoje sou feliz, morando com minha filha e meu genro.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00e3o palavras de Olavo Queiroz de Souza. Em abril deste ano ele completou 112 anos. Ele mora em Ibi\u00fana desde 1935 quando chegou de Jacarezinho, no norte do Paran\u00e1. Veio sozinho e deixou para tr\u00e1s 11 irm\u00e3os e irm\u00e3s, alguns j\u00e1 tinham falecido. Ao todo eram 23. Tomou essa decis\u00e3o de se aventurar pelo mundo depois de observar que sua fam\u00edlia de escravos, como ele, vivia em extrema pobreza numa planta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9. Era uma forma de se tornar um homem livre.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Evitava, assim, ser mais uma boca para alimentar por seu pai, Oscar Queiroz de Souza e a m\u00e3e, Palmyra Joana da Concei\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Logo depois de chegar e estabelecer os primeiros contatos em busca de um emprego, fosse qual fosse, disse que era paranaense. Alguns entenderam que ele era estrangeiro, pois desconheciam o estado em que ele tinha nascido. Por isso, ficou conhecido como Paran\u00e1, hoje um personagem muito conhecido em Ibi\u00fana.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Deixado por um caminh\u00e3o que o trouxe na carro\u00e7aria depois de andar a p\u00e9 35 quil\u00f4metros, chegou em um lugarejo que chamavam Panema, em Ourinhos, uma refer\u00eancia ao rio Paranapanema [as pessoas locais simplesmente faziam uma redu\u00e7\u00e3o do top\u00f4nomo]. A carona conseguiu em Mar\u00edlia que, na \u00e9poca, \u201cse chamava Alto do Cafezal\u201d. Aos 25 anos, desembarcou na beira de uma estrada acanhada de terra, quase uma trilha, onde hoje se encontra o Supermercado S\u00e3o Roque, perto da Capelinha, no centro da cidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 desceu e sentou-se ao lado de uma pilha de carv\u00e3o que havia na beira da estradinha. \u201cFiquei ali, sentado, pensando.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vitrine online \u2013 Em que o senhor pensava?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 \u2013 Fiquei pensando em Deus, pedindo a Deus. Senhor tenho muita necessidade, cuida de mim, ilumina meu caminho. Se eu tiver alguma coisa vou repartir com algu\u00e9m que precisa.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"730\" height=\"438\" src=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Parana-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27702\" srcset=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Parana-2.jpg 730w, http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Parana-2-300x180.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 730px) 100vw, 730px\" \/><figcaption>Senhor Paran\u00e1, sentado ao lado de sua b\u00edblia: &#8220;\u00c9 preciso acreditar em Deus firmemente.&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A mem\u00f3ria e a lucidez do senhor Paran\u00e1 s\u00e3o prodigiosas. Suas respostas s\u00e3o entremeadas com risos contagiantes. Consegue se lembrar nominalmente, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, de todas as pessoas que conheceu, parentes ou n\u00e3o. Lembra-se de fatos ocorridos quando tinha tr\u00eas anos, quando foi vendido, com a fam\u00edlia, da Fazenda Sabino para a Fazenda do Costa J\u00fanior em 1913. Nenhum deles tinham registro porque n\u00e3o existia cart\u00f3rio em Jacarezinho naquela \u00e9poca.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A riqueza de pormenores com que lembra dos fatos \u00e9 impressionante. Na verdade, o entrevistador a certa altura nota que sua hist\u00f3ria \u00e9 merecedora de um livro.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os escravos sofriam toda sorte de torturas aplicadas impiedosamente, desde chicotes com tiras de couro de boi e outros instrumentos que, n\u00e3o raro, provocavam a morte dos escravos. Isso acontecia em todo o Brasil.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 \u2013 Voc\u00ea conhece roda d\u2019\u00e1gua?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vitrine online \u2013 Sim. Serve para canalizar a \u00e1gua para planta\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 \u2013 Mas a roda d\u2019\u00e1gua servia tamb\u00e9m para punir, \u00e0s vezes at\u00e9 a morte, um escravo. A pessoa era amarrada entre os raios de madeira da roda com uma tala de couro curtido que, conforme a roda girava, o corpo ia sofrendo golpes cont\u00ednuos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 \u2013 Tinha um parente meu, um preto muito bonito, irm\u00e3o do meu pai. Pois ele foi preso a uma roda d\u2019\u00e1gua. Quando foi retirado no dia seguinte, os ossos de suas costas estavam expostos. Ele morreu.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vitrine online \u2013 Por que ele sofreu esse castigo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 \u2013 A mulher do fazendeiro se engra\u00e7ou com ele&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Lembran\u00e7as como essa marcaram a vida do senhor Paran\u00e1, mas ele nunca se deixou levar pelas adversidades da vida.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um dia chegou l\u00e1 um soldado fardado. Paran\u00e1 tinha dezessete anos e se encantou e decidiu que queria ser soldado do ex\u00e9rcito tamb\u00e9m. Nessa ocasi\u00e3o j\u00e1 havia um pequeno escrit\u00f3rio que fazia anota\u00e7\u00f5es e registros.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"740\" height=\"450\" src=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/parana-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27706\" srcset=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/parana-3.jpg 740w, http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/parana-3-300x182.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption>Paran\u00e1, a filha Geiza, o genro Jorge e o companheiro de 15 anos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>L\u00e1 vai ele a p\u00e9 at\u00e9 a pequena cidade de Jacarezinho. Conversa com o escritur\u00e1rio. Diz que quer um registro porque pretende se inscrever no ex\u00e9rcito. Resposta: cad\u00ea seu pai? Sem seu pai n\u00e3o tem registro. O jovem Olavo insiste at\u00e9 que recebe apoio de um outro escritur\u00e1rio. Faz o registro dele. Foi feito, mas com uma condi\u00e7\u00e3o: S\u00f3 registro se for com a data de hoje. E assim: Olavo passou a existir a partir de 14 de maio de 1927, como consta em sua identidade, quando, de fato, nasceu em no dia 19 de abril de 1910.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Olavo n\u00e3o se tornou um soldado e da\u00ed resolveu vir para S\u00e3o Paulo, \u201cum sonho de muitos brasileiros\u201d, at\u00e9 chegar em Ibi\u00fana.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em Ibi\u00fana, \u201cera s\u00f3 mato e trilhas\u201d, viu um carro de boi carregado de carv\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cSabe onde tem servi\u00e7o?\u201d Acabou indo para o \u201cfund\u00e3o do Verava\u201d. Arranjou um emprego com Ant\u00f4nio Aro Cano, depois a carvoaria passou para Jos\u00e9 Miguel. \u201cFiquei l\u00e1 muito tempo. Dormia deitado em sacos de carv\u00e3o.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O passo seguinte mudaria o destino de sua vida. O dr. Jos\u00e9 Batista de Carvalho, que tinha neg\u00f3cios em S\u00e3o Paulo, ajeitou vinte alqueires em Ibi\u00fana. Ele j\u00e1 tinha ouvido sobre Paran\u00e1 e pediu a algu\u00e9m: \u201cTraz esse neguinho aqui, pois dizem que ele \u00e9 b\u00e3o.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 aceitou o emprego e ganhou \u201cum quartinho\u201d para dormir. Com o tempo foi ganhando confian\u00e7a da fam\u00edlia. \u201cEu comia feij\u00e3o com carne seca [salgada] para economizar no sal\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Passou a ser tratado como filho e ganhou espa\u00e7o dentro da casa da fam\u00edlia. Mas os neg\u00f3cios do dr. Jos\u00e9 Batista em S\u00e3o Paulo iam de mal a pior. \u201cEu n\u00e3o falava nada, mas percebia o que estava acontecendo.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 procurou o patr\u00e3o: \u201cSei da sua situa\u00e7\u00e3o e acho melhor eu arranjar um emprego na cidade.\u201d Come\u00e7ou como ajudante de caminh\u00e3o, depois motorista, de uma serraria, da Cooperativa Agr\u00edcola de Cotia. Nessa altura Paran\u00e1 que estava morando numa pequena pens\u00e3o, conseguiu comprar uma casa. E a ofereceu para o dr. Jos\u00e9 Batista, seu ex-patr\u00e3o, morar ali.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mais tarde foi trabalhar como taxista com ponto na avenida Henrique Schaumann, em S\u00e3o Paulo. Conseguiu comprar um s\u00edtio no bairro do Curral, denominado S\u00edtio do Sossego. Sua condi\u00e7\u00e3o financeira era muito boa.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em 1950, abriu a primeira casa de m\u00f3veis usados de Ibi\u00fana e depois novos: Casa de M\u00f3veis Paran\u00e1, na rua Pinduca Soares; tinha tamb\u00e9m outro com\u00e9rcio na rua XV de Novembro. \u201cCheguei a ter oito carros zero-quil\u00f4metro.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hoje vive tranquilamente no seu s\u00edtio onde mora com a filha Geiza e o genro Jorge. Geiza \u00e9 professora de m\u00fasica e D\u00e9bora, outra filha, \u00e9 artes\u00e3.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aos 112 anos, o longevo Paran\u00e1 dirige, sai a andar pela cidade e, devagar, l\u00ea a B\u00edblia, que fica ao seu lado sobre uma mesinha na varanda da casa. Dos seus 23 irm\u00e3os e irm\u00e3s, somente tr\u00eas est\u00e3o vivos: Ninico, Em\u00edlia e Leonora.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na casa aonde Paran\u00e1 foi morar, e ser aceito como um filho, moravam o dr. Jos\u00e9 Batista, sua mulher, sua sogra e a cunhada, Maria do Carmo. Os tr\u00eas primeiros morreram. Ficaram na casa apenas a cunhada e Paran\u00e1. Os vizinhos come\u00e7aram a fazer coment\u00e1rios suspeitos sobre ambos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ent\u00e3o, Paran\u00e1 um dia disse a Maria do Carmo se era gosto dela casar com ele. Pedido foi aceito. Ambos tiveram duas filhas. Maria do Carmo morreu h\u00e1 poucos meses aos noventa anos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vitrine online \u2013 Existe algum segredo para contar 112 anos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 come de tudo, mas o faz lentamente, n\u00e3o fuma e n\u00e3o bebe.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 \u2013 \u00c9 preciso andar direito, n\u00e3o mentir, confiar em Deus com firmeza, sempre se movimentar, levantar cedo e dormir cedo. E namorar, mas com todo o respeito.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"740\" height=\"479\" src=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Parana-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27708\" srcset=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Parana-4.jpg 740w, http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Parana-4-300x194.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption>&#8220;A felicidade n\u00e3o \u00e9 dinheiro, n\u00e3o \u00e9 propriedade, n\u00e3o \u00e9 bem que se adquire. N\u00e3o \u00e9 nada disso&#8221;; \u00e9 a paz que se encontra na fam\u00edlia<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA felicidade n\u00e3o \u00e9 dinheiro, n\u00e3o \u00e9 propriedade, n\u00e3o \u00e9 um bem que se adquire. N\u00e3o \u00e9 nada disso! 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