{"id":4721,"date":"2014-07-21T19:50:43","date_gmt":"2014-07-21T22:50:43","guid":{"rendered":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=4721"},"modified":"2014-07-21T19:53:57","modified_gmt":"2014-07-21T22:53:57","slug":"cronica-de-rubem-alves-o-povo-que-eu-amo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=4721","title":{"rendered":"CR\u00d4NICA DE RUBEM ALVES &#8211; &#8220;O POVO QUE EU AMO&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u201cMesmo o mais corajoso entre n\u00f3s s\u00f3 raramente tem coragem para<\/p>\n<p>aquilo que ele realmente conhece\u201d, observou Nietzsche. \u00c9 o meu caso.<\/p>\n<p>Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.<\/p>\n<p>Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da<\/p>\n<p>hora em que a coragem chega: &#8220;S\u00f3 tardiamente ganhamos a coragem<\/p>\n<p>de assumir aquilo que sabemos&#8221;. Tardiamente. Na velhice. Como estou<\/p>\n<p>velho, ganhei coragem.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Vou dizer aquilo sobre o que me calei: &#8220;O povo unido jamais ser\u00e1<\/p>\n<p>vencido&#8221;, \u00e9 disso que eu tenho medo.<\/p>\n<p>Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento<\/p>\n<p>da ordem pol\u00edtica. Mas Deus foi exilado e o &#8220;povo&#8221; tomou o seu lugar: a<\/p>\n<p>democracia \u00e9 o governo do povo. N\u00e3o sei se foi bom neg\u00f3cio; o fato \u00e9 que a<\/p>\n<p>vontade do povo, al\u00e9m de n\u00e3o ser confi\u00e1vel, \u00e9 de uma imensa<\/p>\n<p>mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.<\/p>\n<p>A Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o sacralizou o povo como instrumento de<\/p>\n<p>liberta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Nada mais distante dos textos b\u00edblicos. Na B\u00edblia, o<\/p>\n<p>povo e Deus andam sempre em dire\u00e7\u00f5es opostas. Bastou que Mois\u00e9s, l\u00edder,<\/p>\n<p>se distra\u00edsse na montanha para que o povo, na plan\u00edcie, se integrasse \u00e0<\/p>\n<p>adora\u00e7\u00e3o de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Mois\u00e9s ficou t\u00e3o<\/p>\n<p>furioso que quebrou as t\u00e1buas com os Dez Mandamentos.<\/p>\n<p>E a hist\u00f3ria do profeta Os\u00e9ias, homem apaixonado! Seu cora\u00e7\u00e3o se<\/p>\n<p>derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras<\/p>\n<p>id\u00e9ias. Amava a prostitui\u00e7\u00e3o. Pulava de amante e amante enquanto o amor<\/p>\n<p>de Os\u00e9ias pulava de perd\u00e3o a perd\u00e3o. At\u00e9 que ela o abandonou.<\/p>\n<p>Passado muito tempo, Os\u00e9ias perambulava solit\u00e1rio pelo mercado de<\/p>\n<p>escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como<\/p>\n<p>escrava. Os\u00e9ias n\u00e3o teve d\u00favidas. Comprou-a e disse: &#8220;Agora voc\u00ea ser\u00e1<\/p>\n<p>minha para sempre.&#8221; Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa<\/p>\n<p>numa par\u00e1bola do amor de Deus.<\/p>\n<p>Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a<\/p>\n<p>prostituta, mas sabia que ela n\u00e3o era confi\u00e1vel.<\/p>\n<p>O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos<\/p>\n<p>profetas lhe contavam mentiras.<\/p>\n<p>As mentiras s\u00e3o doces; a verdade \u00e9 amarga.<\/p>\n<p>Os pol\u00edticos romanos sabiam que o povo se enrola com p\u00e3o e circo.No tempo dos romanos, o circo eram os crist\u00e3os sendo devorados<\/p>\n<p>pelos le\u00f5es.<\/p>\n<p>E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!<\/p>\n<p>As coisas mudaram.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os, de comida para os le\u00f5es, se transformaram em donos do<\/p>\n<p>circo.<\/p>\n<p>O circo crist\u00e3o era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo<\/p>\n<p>queimados em pra\u00e7as p\u00fablicas.<\/p>\n<p>As pra\u00e7as ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com<\/p>\n<p>o cheiro de churrasco e os gritos.<\/p>\n<p>Reinhold Niebuhr, te\u00f3logo moral protestante, no seu livro &#8220;O Homem<\/p>\n<p>Moral e a Sociedade Imoral&#8221; observa que os indiv\u00edduos, isolados, t\u00eam<\/p>\n<p>consci\u00eancia. S\u00e3o seres morais. Sentem-se &#8220;respons\u00e1veis&#8221; por aquilo que<\/p>\n<p>fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a raz\u00e3o \u00e9 silenciada<\/p>\n<p>pelas emo\u00e7\u00f5es coletivas.<\/p>\n<p>Indiv\u00edduos que, isoladamente, s\u00e3o incapazes de fazer mal a uma<\/p>\n<p>borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais<\/p>\n<p>cru\u00e9is. Participam de linchamentos, s\u00e3o capazes de p\u00f4r fogo num \u00edndio<\/p>\n<p>adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.<\/p>\n<p>Indiv\u00edduos s\u00e3o seres morais. Mas o povo n\u00e3o \u00e9 moral. O povo \u00e9 uma<\/p>\n<p>prostituta que se vende a pre\u00e7o baixo.<\/p>\n<p>Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a<\/p>\n<p>verdade e segundo os interesses da coletividade. \u00c9 sobre esse pressuposto<\/p>\n<p>que se constr\u00f3i a democracia. Mas uma das caracter\u00edsticas do povo \u00e9 a<\/p>\n<p>facilidade com que ele \u00e9 enganado. O povo \u00e9 movido pelo poder das<\/p>\n<p>imagens e n\u00e3o pelo poder da raz\u00e3o. Quem decide as elei\u00e7\u00f5es e a<\/p>\n<p>democracia s\u00e3o os produtores de imagens. Os votos, nas elei\u00e7\u00f5es, dizem<\/p>\n<p>quem \u00e9 o artista que produz as imagens mais sedutoras.<\/p>\n<p>O povo n\u00e3o pensa. Somente os indiv\u00edduos pensam. Mas o povo<\/p>\n<p>detesta os indiv\u00edduos que se recusam a ser assimilados \u00e0 coletividade. Uma<\/p>\n<p>coisa \u00e9 a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.<\/p>\n<p>Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.<\/p>\n<p>Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrab\u00e1s.<\/p>\n<p>Durante a revolu\u00e7\u00e3o cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo<\/p>\n<p>queimava violinos em nome da verdade prolet\u00e1ria. N\u00e3o sei que outras<\/p>\n<p>coisas o povo \u00e9 capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O<\/p>\n<p>povo alem\u00e3o amava o F\u00fchrer. O povo, unido, jamais ser\u00e1 vencido!<\/p>\n<p>Tenho v\u00e1rios gostos que n\u00e3o s\u00e3o populares. Alguns j\u00e1 me acusaram<\/p>\n<p>de gostos aristocr\u00e1ticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de sil\u00eancio; n\u00e3o gosto de<\/p>\n<p>churrasco, n\u00e3o gosto de rock, n\u00e3o gosto de m\u00fasica sertaneja, n\u00e3o gosto de<\/p>\n<p>futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu<\/p>\n<p>venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a<\/p>\n<p>brincar de &#8220;boca-de-forno&#8221;, \u00e0 semelhan\u00e7a do que aconteceu na China. De<\/p>\n<p>vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse<\/p>\n<p>acontecimento raro aconte\u00e7a, \u00e9 preciso que um poeta entoe uma can\u00e7\u00e3o e o<\/p>\n<p>povo escute: &#8220;Caminhando e cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o.&#8221; Isso \u00e9 tarefa<\/p>\n<p>para os artistas e educadores.<\/p>\n<p>O povo que amo n\u00e3o \u00e9 uma realidade, \u00e9 uma esperan\u00e7a!<\/p>\n<p>__________________<\/p>\n<p><strong><em>Rubem Alves<\/em><\/strong><em> morreu no \u00faltimo s\u00e1bado (19), aos 80 anos, na cidade de Campinas, em decorr\u00eancia de fal\u00eancia m\u00faltipla de \u00f3rg\u00e3os. Pedagogo, poeta e fil\u00f3sofo, psicanalista, ensa\u00edsta, te\u00f3logo, autor de uma vasta obra sobre educa\u00e7\u00e3o, teologia, cr\u00f4nicas e est\u00f3rias infantis. Traduzido para dezenas de pa\u00edses. Professor em\u00e9rito da Unicamp, cidad\u00e3o honor\u00e1rio de Campinas. A cr\u00f4nica aqui reproduzida foi publicada em 2010 no livro Conversas sobre Pol\u00edtica [Editora Verus] e na Folha de S. Paulo em 2012, na condi\u00e7\u00e3o de colunista do jornal.\u00c9 uma forma de reverenciar a mem\u00f3ria de um homem que engrandeceu a cultura brasileira, com sua brilhante intelig\u00eancia, especialmente no campo da Educa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMesmo o mais corajoso entre n\u00f3s s\u00f3 raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece\u201d, observou Nietzsche. \u00c9 o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4722,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v15.8 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>CR\u00d4NICA DE RUBEM ALVES - &quot;O POVO QUE EU AMO&quot; - Revista Vitrine Online<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=4721\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"CR\u00d4NICA DE RUBEM ALVES - &quot;O POVO QUE EU AMO&quot; 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Trabalhou em ve\\u00edculos de comunica\\u00e7\\u00e3o nas fun\\u00e7\\u00f5es de rep\\u00f3rter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Di\\u00e1rio Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, vers\\u00e3o imprensa, de S\\u00e3o Paulo para Ibi\\u00fana h\\u00e1 alguns anos, iniciou uma nova experi\\u00eancia profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajet\\u00f3ria bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lan\\u00e7ado na Bienal do Livro em S\\u00e3o Paulo no ano 2000, pela editora Madras.\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4721"}],"collection":[{"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4721"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4721\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4726,"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4721\/revisions\/4726"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4722"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}