{"id":35591,"date":"2026-04-23T08:07:04","date_gmt":"2026-04-23T11:07:04","guid":{"rendered":"http:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=35591"},"modified":"2026-04-23T08:49:52","modified_gmt":"2026-04-23T11:49:52","slug":"viva-o-dia-mundial-do-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistavitrineibiuna.com.br\/?p=35591","title":{"rendered":"VIVA O DIA MUNDIAL DO LIVRO!"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\"><strong>\u00c0s tr\u00eas horas da manh\u00e3, caminhava do quarto ao corredor em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 biblioteca. H\u00e1bito n\u00e3o raro.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ao me aproximar da estante, repentinamente, senti-me envolto por uma energia circular. Isso aconteceu quanto olhei os livros e vi que estavam im\u00f3veis, silenciosos, enfileirados. Converso com eles habitualmente ou com os seus autores ocultos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mais desperto, lembrei-me que os livros come\u00e7am a falar quando abrimos suas p\u00e1ginas, depois que nos seduzem com os seus t\u00edtulos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Parecia que estavam me esperando. E, l\u00f3gico, eu os contemplei em sil\u00eancio.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>No alto, numa ponta da \u00faltima travessa do lado constru\u00eddo com tijolos pintados de branco estava pendurada uma antiga bengala do vov\u00f4 feita de madeira maci\u00e7a torneada, com mais de cem anos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c0s vezes eu segurava a manopla para ter a mesma sensa\u00e7\u00e3o daquele velhinho cuja morte me fez escrever, em l\u00e1grimas, centenas de p\u00e1ginas que desapareceram dos meus guardados, como desaparecem as nuvens no C\u00e9u.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aquele homem de cabelos curtos e alvos como algod\u00e3o me inundava com o seu amor.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por esse motivo, por mais que me chamassem e quisessem, n\u00e3o fui ver o seu corpo inerte no caix\u00e3o, quando ele partiu como um anjo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sentia-me como se o tempo tivesse parado dentro e fora de mim. Ainda tento, at\u00e9 os dias de hoje, lembrar o que estava sentindo naquele momento. Talvez o que mais se aproximasse fosse a tristeza provocada pelo vazio de sua aus\u00eancia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>V\u00f4 Francisco, esse era o seu nome, me pegava em seu colo, e dava-me a tomar a sopa matinal de p\u00e3o inundado com caf\u00e9 e leite, ado\u00e7ado com uma colher de a\u00e7\u00facar. Ele fazia c\u00f3cegas na sola dos meus p\u00e9s para me fazer rir. Assim brincava com seu netinho querido, filho de uma de suas filhas, minha m\u00e3e da qual guardo fortes recorda\u00e7\u00f5es porque penso ter herdado dela a intensidade das minhas emo\u00e7\u00f5es que carrego sempre comigo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Lembro-me como se fosse agora. Ele deixou o mundo deitado em uma cama na sala da nossa casa. Antes de partir, respirando suavemente, fechou os olhos como se estivesse dormindo. Depois, voltou a abri-los, dirigiu seu olhar aos parentes que estava ao seu redor e disse, com uma paz serena, que havia estado no para\u00edso.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pediu a todos que ficassem bem! Dessa forma seguiria feliz em sua viagem para um lugar celestial, que a gente n\u00e3o consegue ver. \u00c9 para onde apontam as pir\u00e2mides, as torres das igrejas, os minaretes e a dire\u00e7\u00e3o dos nossos dedos quando juntamos nossas m\u00e3os e fazemos uma ora\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Descreveu um lugar maravilhoso, cheio de luz e vida em outra forma, pessoas indo de um lugar a outro, p\u00e1ssaros e borboletas sobrevoando tapetes multicoloridos de flores, rios de \u00e1guas l\u00edmpidas e murmurantes, num cen\u00e1rio de paz e tranquilidade, como uma d\u00e1diva de felicidade eterna.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dito isso, seus olhos se fecharam com uma suavidade indescrit\u00edvel. Foi assim que meu av\u00f4 desapareceu para sempre e passou a viver em meu cora\u00e7\u00e3o na forma de lembran\u00e7a de sua imagem que parece se tornar a marca do amor de todos os netos que tiveram a sorte de ter um av\u00f4 como eu.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A bengala est\u00e1 l\u00e1 em cima, pendurada no alto da prateleira, quieta, im\u00f3vel e silenciosa como os livros que me aguardam como bons &nbsp;companheiros de viagem nessa exist\u00eancia de abundantes mist\u00e9rios, segredos e de fen\u00f4menos admir\u00e1veis.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Li, na \u00edntegra, os dois volumes do denso e magn\u00edfico poema <em>A Divina Com\u00e9dia<\/em>, de Alighieri;  e <em>Dom Quixote<\/em>, de Cervantes. Jamais guardaria na mem\u00f3ria a profus\u00e3o de versos impec\u00e1veis e os fantasiosos devaneios, por suas originalidades na interpreta\u00e7\u00e3o da vida como um espet\u00e1culo aterrador, dolorido e absurdo, e profundamente provocador de espantos e, n\u00e3o raro, estranheza.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Divina Com\u00e9dia e Dom Quixote, como o delirante Ulisses, de James Joyce, fazem parte da minha biblioteca, assim como milhares de outros t\u00edtulos e autores que nos brindam com seus romances, poemas, filosofias, hist\u00f3rias, descobertas. Merecem aplausos todos os que escrevem livros e compartilham sentimentos, conhecimentos e experi\u00eancias vividas ou imaginadas. Testemunhos de suas exist\u00eancias.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Declaro com simplicidade que a leitura \u00e9 um dos meus grandes prazeres. \u00c9 como saborear n\u00e9ctares como suponho eram servidos aos deuses no Olimpo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Minha rela\u00e7\u00e3o com os livros \u00e9 intensa, cont\u00ednua com um senso de curiosidade intermin\u00e1vel, mesmo sabendo que o fil\u00f3sofo tenha conclu\u00eddo ap\u00f3s refletir: sei que nada sei.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A busca por conhecimento \u00e9 uma hist\u00f3ria sem fim. Ir aprendendo no dia a dia \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o humana necess\u00e1ria. Aprende-se o caminho ao caminhar, escreveu Neruda, especialmente com as quedas e outras dificuldades que se apresentam em todas as jornadas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>As dificuldades em cada passo \u00e9 o que faz a gente crescer, ou chegar ao Para\u00edso, ou vencer os moinhos de vento ou penetrar profundamente na autarquia, o conhecimento de si mesmo forjado no dia a dia por meio da liberta\u00e7\u00e3o das ilus\u00f5es. O despertar atento da pr\u00f3pria autoria. Escrever os pr\u00f3prios versos e prosas. A autodescoberta que pode demorar a vir, mas que se inscreve como talvez a maior aventura de um homem diante de si mesmo. A busca de si mesmo at\u00e9 o encontro do verdadeiro ser.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como eu dizia, levei um choque de alta voltagem quando vi que meus amigos antigos, alguns de v\u00e1rias d\u00e9cadas, e novos companheiros estavam inertes nas prateleiras, pois os apreciava como entes eternos, imortais. Mas, como pude pensar nisso, se tudo \u00e9 movimento e transforma\u00e7\u00e3o, imperman\u00eancia, como declama a milenar sabedoria b\u00fadica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dentro de mim o desespero come\u00e7ou a se intensificar e n\u00e3o sabia o que fazer. De qu\u00ea adiantaria chamar por socorro, fazer respira\u00e7\u00e3o boca a boca com as lombadas, massagens card\u00edacas nas capas, injetar adrenalina diretamente em suas p\u00e1ginas, em cada in\u00edcio de cap\u00edtulo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>De repente meus t\u00edmpanos s\u00e3o atingidos por um ru\u00eddo vindo do telefone celular. Desperto do sono e do sonho. Sacudido pela madrugada real, levanto-me, cal\u00e7o a sand\u00e1lia e sigo pelo corredor em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 biblioteca.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eis que vejo todos os meus her\u00f3is e hero\u00ednas a postos e de prontid\u00e3o para serem pegados com carinho e colocados diante dos meus olhos mais uma vez. Estavam \u00edntegros e vivos como podem ser vivos os livros!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sei que grande parte dos autores j\u00e1 se evolaram, mas nos deixaram suas obras escritas como valiosos presentes de suas infinitas aventuras no extraordin\u00e1rio universo das palavras que d\u00e3o sentido \u00e0 prodigiosa linguagem humana.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A prop\u00f3sito, encanta-me e guardo na minha rebelde mem\u00f3ria o que escreveu o fil\u00f3sofo e professor russo B\u00f3ris B\u00farsov na biografia de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, que mergulhou nas mais profundas \u00e1guas da mente humana.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ao retornar, por meio de extensos, surpreendentes e nexos entre os epis\u00f3dios, trouxe \u00e0 tona uma vasta quantidade de p\u00e9rolas indicadoras dos mist\u00e9rios da mente humana que o puseram no mais elevado patamar da literatura universal, ao lado de outros autores que fazem parte da genialidade humana, e que superou tormentos existenciais extremos. Diz assim, vigorosamente, num retrato eloquente da condi\u00e7\u00e3o humana, esse que \u00e9 um dos seus mais cuidadosos bi\u00f3grafos:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cMeu Deus! Quantas imagens, sobreviventes, criadas por mim, ir\u00e3o morrer, ir\u00e3o apagar-se na minha cabe\u00e7a ou derramar-se em meu sangue como veneno.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E, se n\u00e3o puder escrever, eu vou morrer&#8230;Em minha alma n\u00e3o h\u00e1 fel nem raiva, gostaria de amar muito e abra\u00e7ar ao menos alguma das pessoas de antes, neste momento. Isso \u00e9 um deleite, eu o experimentei hoje ao me despedir dos meus entes queridos perante a morte&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando olho para o passado e compreendo quanto tempo perdi com equ\u00edvocos, com erros, na ociosidade, na inabilidade de viver, como deixei de apreci\u00e1-lo, quantas vezes pequei contra meu cora\u00e7\u00e3o e minha alma, meu cora\u00e7\u00e3o se p\u00f5e a sangrar. A vida \u00e9 uma d\u00e1diva, a vida \u00e9 uma felicidade, cada minuto poderia ser uma eternidade de felicidade.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Essa preciosidade se l\u00ea na introdu\u00e7\u00e3o do livro <em>O Idiota<\/em>, de Dostoi\u00e9viski. Seiscentas e setenta e nove p\u00e1ginas, que mexem com uma quest\u00e3o talvez perene na comunidade humana. Trata-se de um pr\u00edncipe, uma pessoa pura, superior, que acaba sendo perante os outros considerado um idiota exatamente por sua bondade, pureza e amor ao pr\u00f3ximo, numa sociedade que desenvolveu o mau h\u00e1bito de corromper as pessoas comuns. O idiota, nesse contexto, e poderia ser qualquer um de n\u00f3s, \u00e9 um ser incapaz de se adaptar \u00e0s circunst\u00e2ncias adversas, num mundo impiedoso.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas, um dia, inexoravelmente, os livros v\u00e3o morrer e desaparecer, como a finitude que acontece com todos n\u00f3s. Ser\u00e3o reduzidos a invis\u00edveis \u00e1tomos dispersos para compor outros corpos na natureza, mas a\u00ed eu j\u00e1 n\u00e3o estarei presente para viver mais esse luto. Tamb\u00e9m deixarei de ser um livro!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Est\u00e1 por tr\u00e1s desse destino inevit\u00e1vel a tecnologia, como a celebrada intelig\u00eancia artificial dos tempos atuais, que, historicamente, quando avan\u00e7a, e isso est\u00e1 acontecendo cada vez mais celeremente, provoca muta\u00e7\u00f5es decisiva \u00e0s quais uns se adaptam e outros acabam capitulando. &nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os primeiros livros, n\u00e3o custa lembrar, eram escritos em t\u00e1buas de argila e pedra, papiro, pergaminho e somente mais tarde passaram a ser feitos&nbsp; com papel, no s\u00e9culo XV, com a inven\u00e7\u00e3o da prensa de tipos m\u00f3veis. Agora se apresentam em telas digitais, no formato escrito ou vocalizado, o livro para ser ouvido.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel, nesse processo, que percamos a mem\u00f3ria alienada \u00e0s m\u00e1quinas e elas funcionem como nossas proje\u00e7\u00f5es, removendo de nossa natureza aquilo que costumamos chamar de humanidade, palavra que soa como desejo sis\u00edfico, muitas vezes esquecida na vasta e profusa imensid\u00e3o do \u00faltimo dicion\u00e1rio encarnado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Enfim, talvez a m\u00e1quina n\u00e3o nos extinga, como teme o subsolo da nossa mente, mas, sim, fa\u00e7a florescer um novo humanismo, porque sem a exist\u00eancia dos seres humanos a Terra talvez perca um pouco de sua gra\u00e7a e divers\u00e3o ao acolher e alimentar essas criaturas t\u00e3o imprevis\u00edveis que buscam a felicidade, conceito que h\u00e1 milhares de anos desafia a compreens\u00e3o do que \u00e9 ser humano. (Carlos Rossini \u00e9 diretor da TVUNA e editor de vitrine online)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s tr\u00eas horas da manh\u00e3, caminhava do quarto ao corredor em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 biblioteca. H\u00e1bito n\u00e3o raro. 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