LEITURA EM TEMPOS DIFÍCEIS – O FILÓSOFOS E AS BORBOLETAS
Meu netinho liga: “Vô, acho que vou a sua casa, você me ajuda a estudar filosofia?” Fico emocionado e feliz! Estudar filosofia para mim é quase como que respirar. Faço isso prazerosamente todos os dias. Ele pergunta: “Vô, meu professor disse que Platão era favorável à escravidão, é verdade?” Uau! Minha cabeça voou para o mundo imaginário das abstrações como se um drone me remetesse para Atenas dos tempos platônicos. Circulei pelos céus atenienses cautelosamente pensando que resposta poderia dar àquela pergunta. E, mais uma vez, vieram à lembrança as borboletas que tanto me encantam quando as vejo nos dias ensolarados voejando sobre as graciosas caliandras róseas no meu doce jardim.
Começo dizendo que na Antiguidade grega o trabalho era destinado a pessoas “inferiores” cujos principais personagens eram os escravos. Aos cidadãos livres gregos, digamos, era um estigma vergonhoso o trabalho, só as pessoas desclassificadas trabalhavam. Isso era culturalmente indiscutível. Aliás, as mulheres, os escravos e estrangeiros eram tratados como seres de segunda classe. Era um dado que nem mesmo um filósofo clássico desse porte podia desconhecer…e aceitar como fato “natural”.
Se a democracia que nos inspira teve a Grécia como berço e isso de fato aconteceu, é fácil imaginar que havia pouca democracia entre os gregos nas cenas cotidianas, aliás até os dias contemporâneos a democracia é mais um sonho idealizado do que uma prática consistente no cenários da modernidade. Os Estados Unidos, um país tido como democrático, é capaz de eleger Donald Trump que se autoproclama ditador impiedoso que segrega pessoas de sete países, proibindo-as de entrar em território norte-americano, milhares de pessoas que comungam outra fé que não aquela que é de seu gosto.
Platão é o filósofo do idealismo por excelência, a ponto de considerar o mundo empírico [da realidade material, das experiências concretas] não verdadeiro. A verdade só pode existir na pureza das ideias, por meio do esforço racional. Ao considerar os homens comuns, inclusos os escravos, incapazes de pensar por conta própria, proclamou que a melhor forma de governo seria aquele dirigido por filósofos, seres iluminados por excelência. Ele também defendia uma república em que as crianças deviam ser tiradas dos pais e levadas para estudar em uma academia para ter a formação filosófica e outros conhecimentos clássicos.
Como não existe apenas uma filosofia, mas tantas quantas forem as capacidades humanas que geram abundantes teorias para explicar e compreender a realidade, tanto material [mundo visível] quanto metafísica [mundo invisível], verifica-se que a busca da verdade não terá nunca um fim. Filosofar são maneiras de perceber as infinitas, surpreendentes e dinâmicas condições da existência.
De alguma forma, nós que vivemos na contemporaneidade dos 2017 anos d.C. somos ainda como crianças admiradas com tudo aquilo que vemos, tocamos, sentimos, ouvimos no admirável ambiente terrestre e diante de uma força de atração cósmica que nos torna apenas pessoas muitas vezes tomadas por miríades de incertezas. Aliás, foi espanto inventou a filosofia.
Sim, netinho, talvez Platão fosse favorável à escravidão, mas talvez não soubesse disso. Mas o seu comentário contrário a essa forma de vida injusta e moralmente absurda já é um modo de pensar filosoficamente. Afinal, até hoje os homens agem assim explorando uns aos outros e não aprenderam serem humanos uns com os outros. Vai ser uma alegria estudarmos juntos. Vou aprender muito!
Enquanto escrevo essas linhas, como se estivesse poetando, mais uma vez observo essas encantadoras borboletas bailando sobre as flores, indo, vindo, desaparecendo para reaparecer novamente. As borboletas são metáforas da nossa forma de pensar. Os pensamentos e as imagens dançam sem parar em nossa mente e, exatamente por isso, todos deveríamos ser filósofos de nossa vida.
Se somos metade animais e metade simbólicos, teremos de viver e aprender com essa contradição. Como aconteceu no filme “De volta para o futuro”, se você surgisse entre os gregos há mais de dois mil anos e fosse defender a libertação dos escravos era provável que seria atacado como foi Sócrates, o pai dos filósofos, que foi condenado à morte porque ensinava aos jovens a serem livres. Ser livre é nosso maior destino. (C.R.)