DEPOIS DO SONHO, ELA DESCOBRIU QUE PODIA

Reproduzo aqui o que me disse uma leitora, aparentemente cansada de ler notícias e acompanhar inqualificáveis postagens que as pessoas fazem na internet de modo contínuo. Além do que, seus olhos começaram a se embaralhar por causa da luz aguda do celular e da profusão de imagens coloridas.

— Acordei de madrugada com um sonho em que me vi refém de um desespero intenso, não um pesadelo.

— Abri os olhos com os pensamentos aflorando em minha mente e senti uma triste e profunda solidão.

As festas de fim de ano já haviam passado, assim como o réveillon, e ela quase não tirou o pé fora de casa. Percebeu que as pessoas se cumprimentaram menos do que em anos passados, quando os celulares eram raros.

— Não disse que quando despertei daquele sonho me senti lançada para fora da vida. Distanciei-me abruptamente de todas as pessoas e do mundo. Não estava onde estava, mas onde estava agora?

Apenas um sentimento melancólico era o único habitante da sua mente. Lembrara-se de ter lido muitas mensagens cujo denominador comum dizia: “Nesta época do ano, as pessoas ficam mais estressadas, tristes e deprimidas.” Motivo: a morte. A ausência daqueles que eram alvos de sua afeição, parentes de sangue, emoção e carinho; de gente que nos preenche.

Há solidão que é bem vivida, e há aquelas que causam sofrimento agudo, profundo, emoções incontroláveis, indicando sentimentos de culpa vindos à tona no galope do passado. Até mesmo os objetos que se encontravam na mesa, chocolate, por exemplo, traziam lembranças doloridas. É o tipo de coisa que a gente nunca gostaria de lembrar, mas que, vez ou outra, ligada ou não a um sonho de reminiscências, vem sangrar a alma.

— Fiquei zanzando na casa. A sala, tão presente em minha vida cotidiana, parecia estranha em suas formas constituídas por quadros, estante de biblioteca, mesa e o forro alto com uma trave central de madeira nobre e resistente. Um vaso de cristal com bico de jaca e um gracioso ramalhete de flores artificiais.

— Parece que ia ficar louca, mas esse não deveria ser o propósito de uma agitação mental nada incomum. Alguma coisa havia tocado como uma ponta de estilo a minha essência mais profunda. Ali reside meu ser intrínseco do qual sempre sinto algum vislumbre de algo que me parece aterrador, como entrar numa caverna escura e não saber de que elementos está rodeada.

Mas havia um apelo inconfundível. Ela sentiu que, como aconteceu com Buda, estava bem próxima de ter uma visão finalmente da verdade do seu ser. Isso a tranquilizou porque há muito havia se distanciado de qualquer tipo de recurso externo e decidira que era a única responsável por encontrar a própria paz, o equilíbrio e a segurança interior.

— Imaginei, em alguns momentos que eu não era eu, não existia mais, como se tivesse ultrapassado o limiar que separa a matéria do espírito, mas que de fato, segundo as especulações metafísicas, as duas coisas, na verdade, se fundiram numa só substância. O desespero quase infantil era, assim percebeu, o segredo do jogo mental que se repetia sem fim.

Ela decidiu, então, apostar todas as suas fichas que parecia ter disponível para sua mão, no silêncio. A ausência de palavras e de imagens na tela mental. Isso seria possível. Aprendera que a meditação centrada na respiração realmente funcionava, porque é uma forma de libertação dos pensamentos, das tagarelices mentais. Mas nem mesmo a isso apelou.

— Sim, o silêncio é uma das formas mais naturais de acessar a minha essência. No meio do caminho, e aí está o problema, existem as corredeiras, os abismos, as montanhas, as miragens, os encantamentos, as ilusões, mas quando se entra no infinito salão azulado do silêncio, há isso é uma das mais sublimes maneiras de se sentir parte do universo.

Você experimentou esse sentimento tão promissor?

— Sim. É verdade que durou pouco, mas foi uma promessa de que é possível. Curiosamente, naquele instante precioso lembrei-me de uma frase em um livro desses que fazem a diferença entre a ignorância e a sabedoria: “Não sabia que podia!” (C.R.)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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