A IBIÚNA QUE OS IBIUNENSES QUEREM

Ao acordar na manhã de hoje fiz um balanço das falas que tenho ouvido dos meus amigos e minhas amigas ibiunenses. Então decidi resumir tudo num título singelo, já que me parece que eles/elas não estão contentes com o que veem e o que ouvem sobre a cidade onde vivem.

Antes, porém, reproduzo uma frase apropriada para o tema destas linhas, do teólogo e psicanalista Rubem Alves:

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.”

Então, para os heroicos leitores que estão dispostos a ouvir, eis o que tenho escutado dos ibiunenses.

Tenho ouvido que os furtos e roubos tanto na área urbana da cidade quanto na área rural [muito extensa com oitenta bairros] estão preocupando os cidadãos que se sentem cada vez mais inseguros, apesar das ações dos agentes de segurança que atuam no município.

Um deles me confidenciou que parece haver um zelo para que os fatos não cheguem ao conhecimento da população, exatamente para não gerar temor e sensação de perturbadora periculosidade tanto nas ruas e praças, quanto nas residências e comércios.

Disse ainda que a cidade carece de implantar sistemas já estabelecidos em cidades vizinhas, como uma rede de câmera de segurança estrategicamente distribuídas nos espaços públicos que tanto servem para inibir ações criminosas quanto para flagrá-las.

Enfim, se diz perplexo com o fato de a prefeitura ainda não ter estabelecido acordos com a Polícia Militar que aumentam o contingente policial nas ruas, como já fizeram municípios vizinhos e de muitas outras cidades do interior paulista.

Tenho ouvido que tanto o Executivo quanto o Legislativo preferem claramente se protegerem atrás de couraças opacas, em vez de atuarem de forma transparente em relação aos seus atos de responsabilidade pública. Lembram que é um dever das autoridades agirem de modo transparente e não um favor. Entulham as redes sociais de mensagens autopromocionais, visando obter uma imagem pública já de olho nas próximas eleições municipais. Autoridades parecem fugir da exposição pública, no plano do jornalismo profissional, evitando ao máximo entrevistas que poderiam ser desconfortáveis ou expor contradições entre fatos reais e as informações despejadas sobre povo continuamente.

Tenho ouvido que as pessoas estão desacreditadas em relação à conclusão da reforma da estação rodoviária. Um deles me avisou: as obras foram paralisadas, fato que se confirmou. Em nota, a prefeitura pouco esclarece. Um grupo de pessoas está planejando levar um bolo até próximo da obra e cantar ‘parabéns pra você’ em comemoração ao primeiro ano de inconclusão, com direito a transmissão direta para as redes sociais.

Aliás, tenho ouvido, muito, as queixas dos usuários da estação rodoviária que foram transferidos para pontos improvisados na Rua Guarani e lá, há meses se encontram à própria sorte, debaixo de chuva, sol quente, frio, vento

Tenho ouvido que houve melhoria no atendimento do Hospital Municipal, muito pelo esforço e dedicação dos profissionais da saúde que lá atuam, mas que ainda são necessárias outras melhorias, aliás admitidas como compromissos pelo atual secretário da Saúde, também em relação à rede básica de saúde em seus dezesseis postos.

Tenho ouvido que os professores da rede municipal de ensino recebem os menores salários em comparação com os que são pagos nas cidades vizinhas, como São Roque, Piedade, Vargem Grande, e que os professores não se movimentam para haver melhoria por temerem represálias.

Tenho ouvido que a prefeitura tem procurado mostrar que está realizando muitas obras, sobretudo em estradas, o que é um fato observável, mas demora ou não atende demandas da população em casos pontuais e simples como instalação de redutores de velocidades, melhoria de sinalização, tapar buracos e crateras em determinadas estradas, sobretudo as de terra, que são muitas.

Tenho ouvido muitos outros relatos e, talvez, prossiga com este em outro momento, mas. em síntese, ao que tudo indica, a Ibiúna, que tanto amamos, ainda está muito longe de ser uma estância turística, assim como de ser a Ibiúna que os ibiunenses querem. (C.R.)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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