Carta a minha mãe

O que eu senti quando você foi embora ainda não está claro para mim. Nunca estará. É uma tristeza indescritível. Uma dor pungente dentro do meu peito todos dias quando estou a olhar o mundo. Ao ver a fotografia estática do seu rosto e me transporto para lugar nenhum. Ao não sei onde fica, que dá no mesmo que lugar algum, que pode também ser chamado de nada. No que se transformou? E aquele amor que nos unia sem exigir palavras para onde foi? E você se foi diante de mim quando evoquei a palavra Deus, que te acolhesse, frase que perdeu o sentido depois da cena final. Até hoje te imagino sem poder ouvir sua voz, seu jeito único de ser, sem poder te abraçar e sentir teu abraço. Tua presença se desvaneceu na eternidade. O tempo acabou para ti e para mim só restou o buraco da saudade e as lágrimas que escorrem dos meus olhos. Nunca mais te vi e sei que isso é para sempre, até o dia em que eu também partirei desta solidão que dói, dói, dói, inconsolavelmente. O teu menino já está grande e vai se mudar para longe talvez para descobrir o que terá sentido ao seu redor em idade tão tenra, sem entender a desrazão do não imaginado. Você se ausentou de repente e me deixou aqui sem eu nada entender. Transmutou-se em flores orquídeas em uma escola. Vive todos os dias em minha mente e no meu coração. Te amo para sempre nesse mundo tão pequeno.

P.S,: Li em algum lugar que depois que o ser humano nasce, é lançado ao mundo, cumpre uma jornada na Terra em busca da volta ao útero materno.

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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