EDITORIAL – MEDO DE REPRESÁLIAS EMUDECE E ENGESSA IBIUNENSES

Há tempos consultei um neurologista. Eu era jovem. E me submeti a um exame minucioso, até que o médico, de sobrenome italiano, apresentou o diagnóstico: “Isso é paura [medo]”. Ele se referia aos meus sintomas. E hoje sei com claridade solar, do ponto de vista da psicologia, que o medo é um estado afetivo que ocorre pela ‘consciência’ do perigo ou por ele é provocado. No entanto, há medos por motivos reais de perigo e aqueles frutos da imaginação e da sensação de insegurança. Em ambos os casos, o medo gera comportamentos: de ataque ou fuga de uma situação.

Feita essa introdução a fim de partirmos de uma referência comum, quero convidar os ibiunenses para uma reflexão a partir da constatação de um fenômeno recorrente, isto é, são fatos que se verificam de modo frequente entre nós.

A maioria absoluta das pessoas [beira os 100%] que procuram apoio ou pretendem fazer denúncias a vitrine online e agora também na TVUNA contra alguma irregularidade em obras e serviços públicos no município expõem a seguinte condição: “Não publique meu nome e nem a minha fotografia.” Resumindo: parecem temer alguma forma de represália por parte do poder público municipal encastelado em um prédio localizado entre um cemitério e uma praça pública, na parte alta da cidade.

“Pode usar o meu vídeo, mas apague a minha voz.” As pessoas não querem ser identificadas e tampouco se exporem a qualquer tipo de risco. Claro que há exceções: pessoas dispostas a enfrentar uma espécie de dragão assustador, mas que desenvolveu uma habilidade de se disfarçar admirável. Ninguém sabe ou testemunha o que ocorre entre as quatro paredes do Paço Municipal, a menos que viva parte de suas vidas lá dentro.

Fatos. Recentemente, publicamos notícia da Escola Municipal “Tereza Falci”, no bairro do Cupim, com 215 alunos do Ensino Básico I. Eles estão em casa sem aula presencial há mais de 100 dias, porque a escola entrou em reforma sem que se saiba de alguma data para a conclusão das obras, contratadas a uma empresa terceirizada.

Os pais reclamam dessa situação argumentando que, pela idade das crianças, as aulas presenciais jamais se podem comparar com as aulas remotas em curso. Na sala, a professora pode acompanhar e contribuir para a evolução da criança por meio de observação direta de seus desempenhos e dificuldades.

Pais do bairro dos Alves também nos procuraram apresentado queixas sobre a precariedade do transporte das crianças que frequentam escola a quilômetros de distancia de suas residências. A denúncia: tem condução com capacidade para transportar cerca de 12 a 15 crianças que está transportando 25, fato muito preocupante e que deixa os pais apreensivos com justa razão.

Muito bem! Encaminhamos, por meio direto e indireto, a integrantes do Conselho Municipal da Educação convite para participarem do programa ao vivo na TVUNA, quando poderiam revelar para a população a verdadeira realidade de várias escolas que visitaram nos últimos dias e sobre as quais fizeram ata relatando as irregularidades que encontraram e que chegaram a ser filmadas. Também, por necessidade de simetria jornalística, convidamos a secretária municipal da Educação para prestar os esclarecimentos oficiais sobre o assunto no mesmo programa. Resumindo: até o momento não houve resposta tanto do Conselho quanto da secretária.

Estamos buscando as razões desse estranho comportamento. Alguns nos informam que por trás dessa conduta muito comum pode ser encontrado medo de represália por parte das autoridades, que parecem exigir absoluta discrição dos seus ‘pupilos’ sobre os problemas que afetam a municipalidade. Por isso, se expor pode ser um ato arriscado. O medo em ação.

Medo de ir para o que se convencionou chamar de “geladeira”, que atingiu uma antiga funcionária que se manifestou numa reunião pública recentemente, ou de ser transferido para os limites extremos do município que têm bairros distantes quase 50 km de distância da região central da cidade ou mesmo afastamento de parentes que se encontram atuando em outras áreas de natureza precária como nas frentes de trabalho, porque ousaram comparecer a um evento promovido por um pré-candidato oposicionista em homenagem ao Dias das Mães e que foram notadas nos vídeos postados nas redes sociais.

Mas essa característica cultural do medo atinge também outras áreas nos ambientes privados e religiosos. O silêncio se tornou uma regra recorrente, lembrando um antigo adágio, que já traduzimos aqui: a palavra é prata, mas o silêncio é ouro. Isso significa que falar pode ser perigoso. E aqui, nesse breve ensaio, procuramos apenas cutucar as possíveis origens do medo de falar e se expor. E não há razão para criticar aqueles que temem, pois se trata de um jeito de autoproteção num ambiente ameaçador e hostil. Perder empregos nesses tempos é realmente temerário.

Defensores de medidas corretivas contra todos aqueles que ousam se comportar contra as regras dos jogos impostas, logo entram no catálogo do j’accuse, que é o processo em que uma pessoa acusa a outra de praticar manobras supostamente traidoras das intenções dos seus superiores às quais querem revelar fidelidade. As informações chegam até aqueles que praticam a punição, geralmente humilhante. No plano mais superior, as chefias consumam o ato proveniente de seus escudos políticos.

Em suma, em regra, todos tendem a se calar diante de estranhos e mais intensamente diante de jornalistas que apenas procuram cumprir a função de informar a população, como um direito inalienável.

Transparência zero, ou quase isso, tem provocado inúmeras preocupações e gerado um crescente descontentamento e desaprovação da atual administração pública, que se esforça para, através de uma intensa e contínua máquina de maquiar a realidade, como se pudesse torná-la cor de rosa, principalmente aos olhos e ouvidos dos mais incautos. Toda a sociedade ibiunense acaba tendo que pagar a conta com uma espantosa resignação, até que na próxima eleição, em 2024, possa ter a felicidade de eleger personagens com outros caracteres, mais democráticos e humanos. Os políticos tradicionais parecem não ter se dado conta que vivemos outros tempos, que são indutores de mudança em outros patamares de relacionamento, imerso no admirável mundo novo da tecnologia da informação que tem o mérito de induzir à transparência, como condição sem a qual a máquina pública tende a emperrar, como parece estar acontecendo.

Acreditamos que ainda não perceberam com clareza que a política tradicional está se esgarçando e a exigir a assimilação de novos conhecimentos e procedimentos. Ibiúna está imersa, queira ou não, no admirável mundo novo da tecnologia da informação, que exige e impulsiona com  rapidez as informações e que precisa de transparência para prosperar. Quem não entender esse fenômeno perderá lugar na nova história, porque a história e os vícios políticos tradicionais estão no fim.

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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