IBIÚNA MINHA, AMOR!

Eu te amo Ibiúna. Apesar dos políticos, e do que eles fazem ou deixam de fazer considerando-se o que se almeja como o irrestrito bem de todos, inclusa a natureza, seu maior patrimônio em estado de dilapidação. Você é minha amor. Seu nome é feminino, e a liberdade poética me assegura o sagrado direito de envolvê-la com essa gramática feminina. Não é por isso que te chamam de Noiva Azul, que abrange vales e florestas inteiras?

Eu te amo por seu povo, por sua terra, por seus problemas de soluções sempre adiadas, pelos seus altos e baixos, por seus rios e cachoeiras, alguns ainda impolutos e encantadores. Eu te amo por sua história de luzes e sombras.

Eu te amo porque persiste e teima em buscar algo que não se sabe bem o que vem a ser, mas a dúvida já foi proclamada como método do conhecimento racional. Então continuamos com o dito e feito ou com o não dito e não feito, porque é assim que as coisas são. Ou não será nada disso? Afinal, toda a escrita pode ser apenas um improviso da emoção.

Ibiúna, minha amor, eu te conheço pelos perfumes de tuas flores que fazem suaves malabarismos no ar, quando estou longe das ruas e estradas por onde passam carros e caminhões deixando escapar gases nauseantes em meio a desavergonhadas fumaças poluentes.

Eu te amo, Ibiúna, porque creio que teu povo desperta aos poucos e sonha com primícias futuras, que o tempo pode trazer, nas conturbadas ondas que vêm e vão em apenas um dia em que o tráfego já congestiona, inimaginável no antanho, quando já se enraizavam em tua terra as gentes de quem já habitavam sua alma com orgulho.

Ibiúna, sei as transformações porque passaste desde que os povos nativos aqui te deram o lugar que ficou com a passagem dos bacamartes das bandeiras e tuas matas, igualmente, a tudo se dobraram, enquanto a torre da igreja subia em direção ao céu e que lembra a tua fé, que repetes Deus abençoe, nas saudações cotidianas, que geralmente fecha conversas benditas.

Das primeiras clareiras abertas nas matas aos dias atuais, a presença humana se esparrama por seu solo sagrado que, visto das alturas, se apresenta em atapetados mosaicos de diferentes tons dos verdes das plantações.

O teu povo, Ibiúna, sonha, acorda, volta a sonhar e vive, no fluxo incontido do tempo. Aqui muitas crianças vieram à luz, tornaram-se adulta, envelheceram, partiram, e outras surgiram e surgem a cada dia para povoar sua história com suas vidas, que progridem em novos conhecimentos e novos sonhos que clamam serem realizados.

Ibiúna, minha amor, sinceramente torço e oro por você todos os dias e quero que teu progresso seja substantivo, consciente e harmonioso com a natureza, seu ambiente vital.

Ibiúna, te amo por te conhecer, mas também pelo seu jeito misterioso  de ser que me desafia como se estivesse diante de uma impassível esfinge sem saber o que responder ao seu decisivo desafio.

Talvez seja mais por teu mistério oculto que te amo. Quando saio a caminhar por suas ruas e estreitas calçadas, a olhar o povo que, em formas singulares, vai de um lugar a outro nas tarefas corriqueiras do dia a dia.  Vejo, assim, que aquilo que parece ser apenas uma história que se repete monotonamente a cada dia, na verdade é uma espantosa novidade diante dos meus olhos, como se pudesse ver a dança dos átomos por trás das aparências. (C.R.)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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