NO MUNDO ACELERADO, ‘PARAR’ SE TORNOU UMA NECESSIDADE VITAL

Há atividades humanas que precisam da rotina, isto é, da repetição para que as coisas se comprovem, funcionem e, também, sobretudo, até mesmo possibilitem aprimoramentos no que se vem fazendo.

Mas, há uma versão da rotina que chega a ser nefasta e até mesmo “mortal”, quando se considera o funcionamento saudável da mente humana.

Quero aqui compartilhar uma releitura que estou fazendo do livro “A Essencial Arte de Parar”, escrito pelo psicoterapeuta norte-americano David Kundtz, que atua na área de recursos humanos, administração do estresse e saúde emocional.

Em suma, sua tese é: você precisa parar, seja por alguns segundos, algumas horas, dias, semanas ou meses, conforme o grau da vertigem causada por conta da velocidade alucinante que a existência impõe cada vez mais aos indivíduos.

Veja uma pergunta sintomática do tema central do livro:

“Você anda estressado, exausto, disperso, com a sensação de estar carregando o mundo nas costas e não consegue dar conta do recado?”

O combate a esse problema está relacionado com o seguinte panorama em torno da palavra “Demais”: “Há coisas demais para fazer, distrações demais, barulho demais, coisas demais exigindo nossa atenção, ou, para muitos de nós, oportunidades demais e escolhas demais.”

O livro, em suas duzentas e tantas páginas, dá várias dicas para que você possa se perceber, saber quem você é o que você pretende para a sua vida. Nada mal, né?

Parar, o autor explica, não é não fazer nada. “Não fazer nada [neste contexto] é de fato fazer algo muito importante. É permitir que a vida aconteça – a sua vida.”

Não fazer nada é algo muito profundo. Seu propósito é fazer com que você se torne mais totalmente desperto e saiba quem você é. Aparentemente, atingir essa compreensão na prática é tornar-se apto a viver a sua própria vida, libertando-se do tédio, que tem lá sua fama ruim, mas que pode ser o ponto de partida para uma mudança de comportamento.

Bem, seria inadequado enfeixar tantas páginas em algumas poucas linhas e o melhor a fazer, neste caso, para quem se interessar, é ir direto ao autor, navegando pelas páginas do seu livro, da Editora Sextante.

AS PALAVRAS

Em suma, o livro está destinado a dar um jeito na chamada rotina, uma palavra de origem francesa que significa “rota”, “caminho”, que seguimos habitualmente, por isso mesmo diz respeito a “trilha batida”, que deixa marcas no chão.

Rotina, já ressalvamos, é importante para ações responsáveis e forma organizada de viver, mas tem, no sentido amplo e genérico, a peculiaridade de se fazer as coisas sempre da mesma maneira, maquinal ou inconscientemente, e isso cobra um preço emocional das pessoas.

Para se ter uma ideia do problema causado pela repetição de hábitos, imagine se não existissem ritos de passagem, como Natal e Réveilon! Carnaval, férias, viagens, praias, passeios, contato com a natureza, museus, visitas a parentes, jogos, campeonatos, amigos, terapeutas, restaurantes, cinema, teatro e, até mesmo, as grandes mídias massivas com seus programas de entretenimento, praças, jardins, rios, lagos, florestas, montanhas.

Mas, voltando ao nosso autor de “A Essencial Arte de Parar”, essa “parada”, ativa, na verdade, pode acontecer no sofá da sala de sua casa, no jardim, no seu quarto, como um modo contemplativo, um olhar profundo para si mesmo.

O autor esclarece a origem latina do termo “contemplação”, como um tempo intensivo passado no templo para tomar consciência dos sinais e presságios [possibilidades futuras] dos tempos.

Parar “ajuda a saber o que você quer realizar e como você quer se comportar. Dá a você tempo para ser, não apenas fazer”.

Na realidade estamos viciados em fazer e em ter, não é mesmo? (C.R.)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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