LEITURA DE DOMINGO – SOBRE POLÍTICA, IGNORÂNCIA E MANIPULAÇÃO
Manter o povo na ignorância, como forma de controle e submissão social, tem sido um objetivo e uma prática seculares de poderosos influentes.
Esse fenômeno se constata em todo o planeta e constitui um desafio gigantesco para seres humanos, como o ativista libertário norte-americano Noam Chomsky, 96, um dos intelectuais mais respeitados no mundo.
Linguista, filósofo e cientista político, Chomsky revelou suas reflexões sobre o que considera as 10 estratégias de manipulação massiva que se observa no mundo na atualidade.
Elas ocorrem em reinados, principados, repúblicas, ditaduras, e em países aceitos como democratas, pois trata-se no fundo de poder de uns sobre os outros, individual ou coletivamente considerados.
Bem, isso se verifica não apenas no oceânico poder econômico de grandes corporações atrás das quais existem os seres humanos mais ricos do mundo, que decidem como devemos pensar e nos comportar por meio de ideologias que incorporam em suas condutas.
Não iremos aqui reproduzir as dez estratégias de manipulação observadas por Chomsky, mas assinalar uma ou outra que nos interessa sobre um panorama que se verifica em milhares de municípios brasileiros, a partir do dia 1º de janeiro quando tomou posse uma legião de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores.
Nos parece oportuno colocar esse cenário sob a lupa das teses de Chomsky porque, afinal, houve aí a ocorrência de três temas que deram título a essa reflexão: sobre política, ignorância e manipulação.
MANIPULAÇÃO E INFLUÊNCIA
Vamos combinar o significado dessas duas palavras?
Manipulação é o poder que uma autoridade usa em relação a uma pessoa ou grupo, a fim de obter vantagens e favores.
As artimanhas empregadas pelos políticos é um processo de manipulação, que, por definição, não é percebido pelo manipulado, seja durante as campanhas eleitorais e após assumem o poder.
As influências [poderes] exercidas sobre um ou mais indivíduos podem ter um caráter ilegítimo, ao sugestionar e falsear a realidade.
A psicologia social argumenta que a influência social consiste no fato de uma pessoa induzir outra a um determinado comportamento desejado pelo agente influenciador.
Por outras palavras, o objetivo do agente é obter uma mudança no comportamento do indivíduo alvo da influência.
Há, obviamente, influência e influenciadores que agem para prover conhecimentos e atitudes saudáveis, como orientações médicas, educacionais, nutricionais e gerar comportamentos valorizados socialmente, prestar informações de utilidade pública, etc.
DISTRAÇÃO
Veja o que diz Chomsky sobre uma das estratégias de manipulação maciça, por meio da distração:
“Consiste basicamente em direcionar a atenção do público para tópicos irrelevantes ou banais. Desta forma, elas mantêm as mentes das pessoas ocupadas.”
A estratégia utilizada, nesse contexto, é “abarrotar” a mente das pessoas de informações, atualmente, sobretudo, utilizando os recursos de imagens e sons velozes, com ou sem uso da chamada Inteligência Artificial, que têm o poder de atrair e fixar as atenções.
APELO ÀS EMOÇÕES
As mensagens postadas pelas redes sociais não têm como objetivo despertar a mente reflexiva das pessoas para que elas possam interpretar a realidade com autonomia e clareza.
O que se busca é gerar emoções e atingir o inconsciente dos indivíduos, fisgando-os pela emoção.
O efeito principal desse recurso é neutralizar a capacidade crítica das pessoas.
PROMOÇÃO DA IGNORÂNCIA
Chomsky argumenta ainda que manter as pessoas na ignorância é um dos objetivos do poder manipulatório. Isso significa não dar às pessoas as ferramentas para que possam analisar a realidade por si mesmas, e sim fazê-las pensar pela influência recebida.
Manter-se na ignorância, ele reforça, também é não dar ênfase à educação, o que abre uma lacuna entre a educação privada (com tendência elitista) e a educação pública. Ele sintetiza: “Adormece a curiosidade de conhecimento e dá pouco valor aos produtos da inteligência.”
Bem, estamos no alongando demais para uma era que dá pouco valor à leitura e está hipnotizada por uma estética superficial constituída por imagens demasiadamente rápidas para permitir uma reflexão sobre como elas pretendem nos afetar, como se fôssemos marionetes.
Se você for um dos raros leitores que chegaram até aqui, queremos reverenciá-lo porque, muito possivelmente, você consegue separar o joio do trigo e está no caminho certo de ser você mesmo e livre de manipulações e notícias falsas. E, sobretudo, do papo dos políticos que se transformam em atores de comédias, apesar da realidade dramática da condição humana em sua cidade. (Carlos Rossini é jornalista e sociólogo)
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Nota da Redação: a ilustração dessa reflexão representa o Mito da Caverna, metáfora criada pelo filósofo Platão, em que se vê uma dissonância [contradição] entre a ignorância e o conhecimento verdadeiro.
