PAPO CABEÇA – CIDADÃOS E CIDADÃS IBIUNENSES, UNI-VOS!

Há alguns anos, quando minha ingenuidade andava pela estratosfera, vi-me no auditório da Câmara Municipal de Ibiúna acompanhando jornalisticamente a sessão.

Um vereador com jeito simplezão, eleito pela primeira vez – e ele seria reeleito – começou a falar no plenário.

O que ouvi não era exatamente uma harmoniosa sinfonia verbal. Ao contrário, desafinava: cortava os “s” das palavras, punha em conflito a concordância verbal e nominal e por aí afora.

Tento puxar da minha memória o desempenho expressivo daquele ser que representava seus eleitores-cidadãos no Legislativo.

Mesmo sabendo que não seja necessário – muito longe disso – ser um erudito no idioma pátrio para ser eleito para algum cargo público, fiquei intrigado.

Inicialmente fiz um juízo severo, mas, posteriormente, tive a ideia de propor a realização de um curso de comunicação e expressão para os edis, porque havia outros que podiam carecer de ajuda para se expressarem de modo mais adequado na condição de representantes do povo.

Certamente, incluiria uma noção básica de gramática, com exemplos práticos e simples.

O projeto gorou. Talvez a principal razão terá sido o fato de que nenhum deles querer admitir que precisavam de um reforço na língua de Camões.

Houve também, no período, um prefeito incapaz de concordar um verbo com o sujeito, além de desidratar as palavras terminadas com “s”.

Comportava-se como um motorista que não respeita os sinais de trânsito por não saber interpretá-los corretamente.

Lembro-me que ele me dissera: “Eu não sou um homem de palavras, e sim de ação!”

Sinto-me no dever com os leitores de informar que os pensamentos, constituídos de palavras, invariavelmente precedem a ação. A ideia de construir um prédio, vem antes de começar a construção, se é que me entendem.

Afinal, por que estou escrevendo tudo isso?

Porque na terça-feira (4), na primeira sessão da Câmara do mandato que se desdobrará até 2028, dois parlamentares, talvez desprevenidos ou descuidados, chamaram o que normalmente se denominam cidadãos de “cidadões”.

Pra quê! Logo em seguida, mesmo antes de terminada a sessão, já se via postagem nas redes sociais ironizando uma das autorias dessa mancada gramatical, pontificando duas situações distintas.

Primeiro, o proverbial espírito bem-humorado do brasileiro, não é mesmo? Segundo, refletindo a animosidade que existe enraizada na política de grupos políticos e de suas intrigas e futricas.

Uns e outros jogando pedras em seus adversários e sendo vidraça simultaneamente, quando deveriam estar cuidando de cumprir com excelência de suas responsabilidades nos cargos em que foram investidos pelo povo.

Em suma, nada que não possa ser considerado “normal” na tradicional política brasileira, fruto de um colonialismo cultural arcaico.

Felizmente, a Edilidade conta com profissionais qualificados para cuidar da palavra escrita apropriadamente, o que previne erros e complicações de natureza jurídica. Afinal, uma vírgula fora do lugar pode causar um problema e tanto.

Lembram-se daquela história do rei que enviou uma mensagem comutando a pena de um condenado à morte. O texto original dizia: “Não matem o homem!”; mas o curioso mensageiro acrescentou uma vírgula fatal: “Não, matem o homem!.”

É preciso ter cuidado com a linguagem que navega dentro e fora de nossa mente.

Mas que seria muito positivo que cada um dos vereadores cuidassem de fazer melhor uso da Língua Portuguesa, ah!, isso seria muito bom!

Ter um repertório verbal rico potencializa a atuação na oratória, as ideias, os projetos e até mesmo a realização de bons serviços à população, que tanto merece.

Mas consideremos que o deslize deva ser visto com indulgência, mesmo porque a prática da humildade diante das fragilidades alheias é uma boa norma de conduta. Depois as normas da Língua Portuguesa são mesmo complicadas. Regras convivem habitualmente com exceções.

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

A palavra “cidadão” é uma exceção à regra geral de formação do plural na língua portuguesa. A regra geral é acrescentar o “s” no final da palavra no singular.

A palavra “cidadão” é paroxítona, ou seja, a sílaba tônica é a penúltima. Palavras paroxítonas e algumas oxítonas podem ter o plural formado com o acréscimo de apenas um “s”.

Alguns exemplos de palavras que seguem a regra de formação do plural em “-ões” são: Coração – corações, Peão – peões, Macarrão – macarrões, Ladrão – ladrões, Confusão – confusões.

Assim, o plural correto é cidadãos. Veja alguns exemplos de palavras pluralizadas da mesma maneira: irmão/irmãos, grão/grãos, bênção/bênçãos, cristão/cristãos.

Por fim, mas não menos importante: o plural de cidadã e cidadãs. (Carlos Rossini é editor de vitrine online)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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