O que você pensa de sua cidade?
Nestes tempos de mundo virado de cabeça para baixo é bom que nos protejamos contra a avassaladora carga de informações que recebemos a cada momento, sobretudo nas coisas da chamada política que podem estar transformando nossas cabeças num pandemônio sem fim.
O fenômeno está se estabelecendo e ampliando suas garras em escala mundial [veja o caso do insano Trump de querer subjugar o planeta, por meio de um jogo pela expansão do poder pelo controle econômico de todos os países, como o nossa pátria amada Brasil], se derramando pelos países e estados locais.
Lamento ter que dizer que, como parte do tecido das organizações mundiais, também os municípios se incluem nesse cenário assustador. Eles constituem a menor célula em um sistema territorial federativo, e também são conhecidos como a cidade onde a gente mora. Trata-se da realidade imediata de nossas existências.
Já em 1977, o professor e jornalista francês, Roger Schartzengberg, chamava a atenção para um fenômeno cada vez mais comum nos dias de hoje que ele desfiou no livro O Estado Espetáculo.
Para não cansar leitor, resumo: ele observa que a política cristalizou-se como espetáculo e os atores políticos se tornaram homens-shows criando toda a sorte de eventos para suas exibições que transformam o cidadão em simples e frágil espectador.
Seus discursos, exuberantes retóricas de caráter populista, se dirigem ao centro das emoções humanas, entremeados de promessas de dias melhores e, portanto, de exercícios mentais futuristas.
Dito de outra maneira, ele se torna um protagonista da eventologia, criando, por meio de serviços de marketing às vezes sem nenhum escrúpulo, o personagem principal de diversos acontecimentos, como festas, espetáculos, comemorações, solenidades, organizadas por especialistas com objetivos institucionais, comunitários e promocionais.
O efeito primário desse fenômeno é a ocupação da mente das pessoas com espetáculos de tal modo que elas deixam de pensar e de enxergar a realidade nua e crua, que afeta suas vidas não raro de forma dramática.
O antídoto contra esse rolo compressor de acontecimentos estrategicamente organizados é manter um mínimo de senso crítico e, sobretudo, acreditar no que a gente vê como fato notório e evidente, uma espécie de São Tomé contemporâneo. Ou, e isso exige um despertar da consciência, desenvolver uma imunidade emocional.
Aprender a pensar, portanto, pode ser uma boa ideia, porque pensar é diferente de ter pensamentos. Ter pensamentos automáticos que surgem na tela mental dos indivíduos, sem que tenham sido criados de modo consciente, isso não é pensamento autoral. Pensar é construir ideias e dar vida aos pensamentos por meio de suas próprias palavras vocalizadas.
Talvez, portanto, seja oportuno saber diferenciar a mentira da verdade, que não é uma tarefa fácil para os seres humanos sujeitos ao engano, pelos limites naturais de que somos portadores.
Há uma conhecida parábola com a seguinte narrativa, aqui resumida.
Em um dia ensolarado a Mentira e a Verdade saíram a caminhar no campo. E resolveram banhar-se nas águas de um rio que se apresentava muito convidativo.
Cada uma tirou a sua roupa e caíram na água. Mas, a um dado momento, a Mentira aproveitou-se da distração da Verdade, saiu da água e vestiu as roupas da Verdade.
Quando a verdade saiu da água, negou-se a usar as vestes da Mentira. Saiu nua a perseguir a Mentira. As pessoas que as viam passar acolhiam a Mentira com as vestes da Verdade, mas proferiam impropérios e condenações contra a atitude despudorada da Verdade.
Moral: as pessoas estão mais dispostas a aprovar a Mentira com vestes de Verdade do que enfrentar a Verdade nua e crua.
Talvez por isso estejamos sujeitos a cair na lábia dos políticos que em público se mostram doces como mel, embora nem sempre, e nos bastidores se comportam como zelosos aprendizes de mágicos cujo maior mérito é iludir as pessoas. (Carlos Rossini é jornalista, diretor da TVUNA e editor de vitrine online)
