CRONISTA DA CIDADE – A FALTA DE CLAREZA NOS CAUSA ESTRANHEZA

Mais uma vez, caros leitor e leitora, me preparo para uma imensa maratona: percorrer com os olhos e atentamente as 1.438 páginas criadas por Fiodor Dostoiévski para seu monumental romance Os irmãos Karamázov.

Na primeira tentativa, limitado por uma catarata incipiente, cheguei a páginas tantas e capitulei por perder o contato com personagens e suas participações na história, que revela um universal conflito familiar.

A genialidade do autor cuida de traduzir tanto a aparência quanto os mistérios íntimos da mais de quarenta personagens que interagem naturalmente pelos mais diversos motivos, mas, sobretudo para revelarem como são os seres humanos em suas inter-relações e motivações secretas.

Não há como, em suas primeiras palavras visando orientar os leitores, ignorar a atualidade de seu pensamento, escrito, na realidade, por volta de 1880. Ele escreveu:

— Pensando bem, seria estranho exigir clareza das pessoas numa época como a nossa.

Bingo! Como esperar que pessoas comuns, como você e eu, tenham clareza do andamento da carruagem do mundo imprevisível e violento, com suas guerras e líderes psicopatas?

Como esperar ver sentido num país em que a corrupção reina soberana com golpes financeiros que atingem cifras astronômicas retiradas dos bolsos de milhões de aposentados e sirva para orgias e produção de filme patético com o uso de dinheiro retirado da população?

Como considerar normal os escândalos sempre envolvendo desvio de dinheiro para os próprios bolsos, nos municípios, estados e na federação, protagonizado por senhores de terno e gravata que frequentam as cadeiras do Congresso Nacional, e se embriagam com bilhões e bilhões de reais?

Como não sentir indignação com a sanforização do futuro a espaços cada vez mais reduzidos e a perda da capacidade de reagir à tendência de acomodação diante de uma realidade cruel, injusta e perversa?

Pensando bem, é estranho exigir clareza das pessoas na época em que estamos vivendo em que temos, de um lado, as mais avançadas e diversas tecnologias já inventadas pelo Homem, convivendo com cenas de misérias explícitas com os seres humanos reais.

Na essência, o livro de Dostosiévski, escrito no século 18, trata exatamente disso: os conflitos humanos que se mantêm vivos e presentes, afetando as emoções humanas, muitas vezes, de forma impiedosa.

Não é à toa que essa sensação de angústia nos acompanha no dia a dia e, não raro, nos tira o sono e entrega pesadelos como se fossem reais.

CRONISTA DA CIDADE

Carlos Rossini é diretor da TVUNA e editor de vitrine online.

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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