O QUE É EDUCAÇÃO PARENTAL E COMO ELA FUNCIONA NAS FAMÍLIAS
Por Mara Ishii
Hoje somos bombardeados por influenciadores falando sobre Educação Positiva, Parentalidade Consciente, Educação Respeitosa, Coaching Parental e tantas outras abordagens.
Na prática, todas elas são linhas e vertentes que fazem parte de um campo maior: a Educação Parental.
São formas de exercer o papel de mãe e de pai de maneira mais assertiva; de educar com firmeza e, ao mesmo tempo, com leveza; de construir relações familiares mais harmoniosas. Em muitos casos, trata-se também de fazer diferente do que nossos pais fizeram conosco.
E isso não significa que eles fizeram tudo errado ou que agiram por mal. Significa apenas que fizeram o melhor que puderam com o conhecimento, os recursos e as ferramentas que tinham disponíveis na época. Hoje, porém, temos a oportunidade de ampliar esse repertório por meio do conhecimento, do suporte especializado e de novas estratégias para educar nossos filhos.
Isso me lembra uma conversa recente com uma amiga que se tornou mãe há alguns meses. Ela comentou que ela e o marido estão estudando, lendo e buscando apoio profissional para compreender melhor as questões relacionadas à família e à educação dos filhos. Segundo ela, não quer que sua filha viva as mesmas dores que viveu na infância.
Ela cresceu em um ambiente marcado por gritos constantes e, como consequência, vivia em estado de alerta e reatividade. Mas isso não aconteceu porque sua mãe era uma pessoa ruim. Aconteceu porque aquela era a única forma de educar que ela conhecia. Além disso, era uma mãe solo sobrecarregada, que simplesmente não sabia como agir de outra maneira.
Muitos de nós também crescemos ouvindo a famosa frase de que a mulher nasce com instinto materno e já sabe ser mãe. Hoje sabemos que isso não é verdade. Ninguém nasce sabendo ser mãe ou ser pai.
Aprendemos na prática. E prática envolve acertos, mas também erros.
Sempre digo que acho curioso observar que, para ser médico, é necessário estudar anos, cursar faculdade, especializações e, muitas vezes, doutorado. Para ser professor ou advogado, também é preciso uma longa formação. Claro que todas essas profissões envolvem vidas e responsabilidades importantes.
Mas e para criar um filho?
Será que devemos simplesmente improvisar?
Criar um filho significa formar a base de uma vida inteira.
A Educação Parental, porém, não se limita à criação dos filhos. Ela começa antes, na relação e na dinâmica familiar. Por isso gosto de dizer que trabalhamos a dinâmica da família como um todo, independentemente de sua configuração: casais com ou sem filhos, famílias com crianças atípicas, mães ou pais solo, casais homoafetivos, entre outras.
A base de qualquer família está nas relações que a sustentam.
Quando o casal não está bem, quando a mãe não está bem ou quando o pai não está bem, isso inevitavelmente se reflete na dinâmica familiar. O exemplo da mãe sobrecarregada ilustra isso perfeitamente. Como alguém que está emocionalmente exausto consegue educar e cuidar dos filhos da melhor forma possível?
E podemos ir ainda mais longe.
Essas questões também aparecem na escola. Uma criança que vive conflitos familiares constantes ou que é educada por meio da violência tende a refletir essas experiências em seu comportamento, em seus relacionamentos e até mesmo em sua aprendizagem.
Da mesma forma, os impactos chegam à vida profissional dos adultos. Pense em uma mãe que precisa deixar um filho doente em casa para ir trabalhar. Como estará sua concentração? Como será seu desempenho naquele dia?
Tudo isso faz parte da Educação Parental.
Precisamos de novos olhares, novos caminhos e novas ferramentas para criar e sustentar famílias mais saudáveis, funcionais e leves.
Isso significa que elas serão perfeitas?
Não.
Aquela família que, na minha época, chamávamos de “família de comercial de margarina” simplesmente não existe.
Mas, como diz Maya Eigenmann, existe algo muito importante: minimizar danos.
As políticas públicas também têm reconhecido cada vez mais a importância da saúde familiar. O Brasil deu um passo importante em 20 de março de 2024, quando foi sancionada a Lei nº 14.826/2024, que instituiu a Parentalidade Positiva e o Direito ao Brincar como estratégias de prevenção à violência contra crianças.
A lei define a parentalidade positiva como uma forma de educar baseada no respeito, no acolhimento e na não violência, princípios profundamente alinhados aos fundamentos da Disciplina Positiva.
Também podemos citar iniciativas municipais inspiradoras, como a desenvolvida em Osasco, idealizada pelo então secretário da Família, Marcelo Couto, por meio do projeto Famílias Fortes.
Tive a oportunidade de conhecê-lo anos atrás durante um congresso internacional de Educação Parental. Na ocasião, ele compartilhou uma história que me marcou profundamente.
De forma resumida, durante o encerramento de uma das turmas do projeto, uma mãe se aproximou para agradecer à equipe de formadores. Ela contou que a dinâmica de sua família havia mudado completamente após sua participação no programa.
Pela primeira vez, ela havia aprendido outras formas de educar e descoberto que não precisava bater nos filhos para exercer autoridade.
Ela fazia isso porque havia sido educada daquela maneira e acreditava que aquela era uma demonstração de cuidado e amor.
Quando passou a construir uma rotina, estabelecer acordos, impor limites com firmeza e respeito e fortalecer a conexão com os filhos, tudo começou a mudar.
As crianças ficaram mais calmas, colaborativas e seguras. O comportamento melhorou, assim como o rendimento escolar.
Histórias como essa nos mostram que a Educação Parental não é apenas uma teoria. Ela é uma ferramenta de transformação familiar, capaz de romper ciclos, fortalecer vínculos e construir relações mais saudáveis para as futuras gerações.
Sobre a autora
Mara Ishii é Educadora Parental, Coach de Relacionamento e Psicopedagoga. Formada em Letras e Pedagogia, possui especializações em Psicopedagogia Clínica e Institucional, Neuropsicopedagogia, Neurociência e Reabilitação Cognitiva, além de formação em Coaching Parental. Atua auxiliando famílias, mães, pais e casais a construírem relações mais saudáveis, funcionais e afetivas por meio da Educação Parental, da comunicação consciente e do fortalecimento dos vínculos familiares.
Instagram: @educacaoparentalemocional
E-mail: maraishii@gmail.com
