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A MORTE DE UM HOMEM QUE NÃO SE PREOCUPAVA COM MOSQUITOS

A cidade era pequena, poucas ruas, a igreja na praça da matriz, sua torre vista de longe, encimada por um cruzeiro iluminado à noite. As pessoas, a maior parte conhecidas entre si, na época do acontecido, eram muito parecidas em seus modos e maneirismos nos gestos e nos modos de falar. Se fosse necessário usar uma concepção radical seria possível dizer que todas teriam saído da mesma forma. Hoje, por conta da tecnologia, se diria que parecem ser feitos em série, como coisas fabricadas por máquinas e robôs.

Exceto um deles, exatamente o falecido. Esse era visto como uma figura exótica, esquisita mesmo, sempre chamava a atenção porque parecia extravagante sobretudo em razão de exaltar seus sentimentos de maneira muito intensa. Por ser abertamente crítico, espontâneo e, digamos, ter suas próprias crenças incompatíveis com o credo coletivo, era visto como uma espécie de animal tresmalhado do bando. Era, de fato, um exemplar solitário por ser diferente.

Naquele tempo nem existia a palavra bullying, mas era exatamente o que faziam com ele aqueles seres que, em maioria absoluta, eram na verdade um aglomerado de ignorantes e preconceituosos. Aparentavam ser inocentes em seus comentários ácidos, mas eram verdadeiramente maldosos inconsequentes, como aqueles personagens que durante a Inquisição se compraziam ao ver as vítimas da Igreja serem imoladas ou enforcadas.

Em suma, o achincalhado em vida pelo povo já não precisava mais ter de se defender das humilhações feitas de palavras, de gestos ostensivos ou disfarçados, mas que jamais passavam despercebidos por aquela figura que fazia parte da sociedade provinciana ao extremo.

Morto, os vivos ainda mantinham uma extrema curiosidade sobre aquele homem elegante no seu modo de falar e sempre respeitoso com os outros. Queriam saber por que fazia diferente dos demais. Como não lhe acharam parente algum, decidiram, por consenso de uma assembleia formada em frente à igreja, acharam que podiam abrir seu cérebro e ver o que havia dentro dele. Seria diferente dos cérebros das outras criaturas? Alguém na multidão bradou que o falecido era gente boa, que só fazia o bem, amava os animais e estava sempre pronto para defender seu senso de valor e de justiça. Detestava a violência como um vampiro teme a luz!

Então improvisaram uma mesa de corte de um açougue e se puseram a serrar o tampo do crânio, que foi levantado na ponta de uma faca de descarnar boi. E aí se puseram a ver de ângulos diferentes as circunvoluções cinzentas. Houve até mesmo quem tivesse trazido uma lanterna para clarear os miolos. Mas, como se veria, depois de tanta e frustrada operação, nada foi descoberto que pudesse explicar um homem que se comportava de modo diferente daquela tribo humana.

Um indivíduo testemunhou que o falecido talvez fosse um artista, um poeta, ou filósofo, pois se tivesse visto alguém que era por si mesmo era aquele que estava deitado sem o tampo da cabeça. “Tinha suas próprias ideias e gostava delas”, comentou discretamente uma das raras mulheres ali presentes.

Houve ainda outros testemunhos reveladores! “Ele era o único homem livre de nossa cidade, todos os demais eram poltrões”, disse um velho boticário, com seus óculos fundo de garrafa que lhes ampliavam consideravelmente o tamanho dos olhos.

“Ele era um homem bom de verdade!”, ouviu-se uma voz surgida do meio do povo concentrado. “Seu maior sonho era ver todos nós vivendo uma vida de amor e respeito e a cidade como um lugar digno de se viver.”

Um alcoólatra se aproximou, olhou e farejou a cena como um cão que acaba de chegar e gritou. “Pô, esse cara era o meu melhor amigo!” Quis saber por que haviam aberto sua cabeça e não satisfeito com as conversas fiadas, declarou com toda a força do pulmão: “Vocês não sabem que o que há de melhor do homem não se vê com os olhos, mas com os sentimentos?”

Depois, todos os cidadãos foram dormir e continuaram tendo apenas sonhos medíocres. (C.R.)

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