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NOITE DE DOMINGO – ÀS VEZES O TÉDIO DÓI COMO INFLAMAÇÃO DA ALMA

Para ela, o tédio parecia uma inflamação dolorida em sua alma. No domingo à noite, a sensação piorava ainda mais ao lembrar que viria a segunda-feira e, com ela, a rotina, a mesmice, a repetição. Sentiu uma pontada de tristeza imensa quando fechou o portão e entrou na casa. Sabia que iria ao encontro da solidão e enfrentar, mais uma vez, a dificuldade de dormir.

TV estava descartada, trash [lixo] para consumo daqueles que já foram contaminados pelo sistema, que se parece com o monstro marinho que engoliu Jonas. Quando atinge o estômago já começa a trabalhar com seus poderosos ácidos que decompõem o indivíduo todo impiedosamente.

Iria ler um texto sutil e profundo de uma escritora gaúcha que está completando oitenta anos e que, por conta de uma sensível penetração nos segredos femininos se tornou conhecida no mundo por insinuar revelações que as mulheres [que são sempre duas – uma visível e outra oculta, como Lilith] só manifestam em momentos indescritíveis.

Essa situação parelha pode muito bem ser uma das causas do tédio e da angústia que apertam nosso peito e nos impõem sentimentos ou sensações inquietantes e desagradáveis. Ela pensou:

“São em geral imagens ou lembranças vagas que se esboçam na minha cabeça, que eu não sei de onde vêm e que às vezes me fazem pensar que estou ficando louca.”

Na verdade se sentia enojada de calmantes e soníferos, assim como dependente dessas drogas que diminuem ou bloqueiam o desespero que surge, às vezes de repente, como acontece num ataque de pânico.

Os livros ainda eram o seus melhores esconderijos e refúgios. Amante da leitura, encontrava cumplicidade com as experiências emocionais de homens e mulheres que, como ela, pagavam com as palavras as próprias dores de viver, porque parece que as há para todos, pelo menos para aqueles que conseguem enxergar para além do próprio umbigo.

Diante do espelho mirava o rosto quase sem enxergá-lo nas sutilezas dos traços, como sinais fixados de expressões, pequenas e incipientes rugas nos cantos dos olhos, além de um pouco de inchaço e os primeiros cabelos brancos que surgiram como as frutas que vão brotando devagar e crescendo se tornam visíveis e magníficas!

Agora estava chorando, aliás isso acontecia cada vez com mais facilidade e frequência. O pano do fundo eram lembranças que geravam sentimentos que eram como que grades de uma cela da qual não há como sair. Enfim, intuía as causas, mas não era capaz de diluir seus efeitos. Lembrou-se do que é viver em uma família, receber influências desde pequenina, mesmo antes da aprender a falar, mas sua memória se perdia e permanecia oculto aquilo que era preciso se revelar.

Ligou a televisão para espantar os fantasmas que lhe faziam cerco, mas, ao não ver nada interessante, apertou o botão escurecendo a tela. Tentou lembrar se haveria algum acontecimento diferente no trabalho na segunda-feira, um aniversário, para se fixar nesse tema com esperança. Mas não obteve resposta da memória.

Ligou o notebook para entrar em contato “digital” com o mundo, mas sabia, de antemão, que isso ia encher seus olhos de uma luz que prejudica ainda mais o sono. Mas, também, distrai.

Precisava sentir paz, respirar com leveza, sentir o corpo, harmonizar-se com ele. “O corpo às vezes nos trai” – lembrou-se da frase do cardiologista que visitara num dia da semana para saber as razões de seu coração estar saindo do ritmo e de sua falta de ar, sem o qual ninguém pode viver.

Decidiu, mais uma vez, que iria ficar quieta, silenciosa, procurando ouvir os fenômenos do presente. O ruído dos grilos do lado de fora da casa, o tique-taque do relógio no corredor, o ronco do motor de um carro na rua, o friozinho da meia-noite, as coisas existentes no quarto, a luz tênue do abajur… Assim se sentia melhor, pois afastava as lembranças, principalmente de coisas que lhe traziam a ideia de culpa e os conflitos que vivera em família.

Essa ideia de prestar atenção no movimento respiratório sempre causa um alívio – ela pensou, pouco antes de, finalmente, adormecer. (Carlos Rossini)

 

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