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HOMEM É DADO À LUZ DEPOIS DE SOFRER UM APAGÃO

Assim do nada, sofri um desmaio, síncope na linguagem médica corrente. De repente, não estava mais em lugar algum, exceto meu corpo amolecido e sem governo levado para o hospital nos braços fortes do meu filho.

Quando recobrei os sentidos, vi um frasco plástico de soro de cuja base saia uma cânula em direção ao meu braço esquerdo.

Estavam diante de mim minha mulher, uma amiga da família e meu herói que me carregou em seus braços, não sem o desespero de ver seu herói da infância pedir socorro e escorregar pela parede do corredor de casa em direção ao piso.

A última lembrança como o último fio de consciência, no exato instante da queda, foi evitar bater a cabeça. Por isso, como pude, encostei deslizei na parede. Aí o breu reinou absoluto.

Ao acordar, tive dificuldade com a memória, que voltaria gradativamente nas próximas horas e dias. Já haviam feito um eletrocardiograma, um raio-X e exame de sangue para contagem de enzimas e outras substâncias importantes para orientar condutas médicas.

Passei o dia no hospital e fui atendido com notável atenção pelos enfermeiros. Lembro-me pouco do médico que me avaliou.

À noite, fui transferido para o Hospital Regional de Sorocaba. Sentia meu desconfortável estômago subir e descer da garganta, cada vez que a ambulância diminuía a marcha e passava sobre as intermináveis lombadas em uma estrada estreita, com altos e baixos e muitas curvas. Não deu outra, acabei vomitando até o que não tinha no estômago.

Até hoje, não se sabe qual foi a causa da síncope. Passei por uma tomografia do cérebro. O médico neurocirurgião residente de plantão examinou o filme com dezenas de fotografias para mim tão enigmáticas quando o interior de uma pirâmide egípcia.

Educado e atencioso, o médico consultou o neurocirurgião-chefe e escreveu que a causa do desmaio “não era local”, isto é, no cérebro. Sugeriu que fosse avaliada uma possível “infecção metabólica”, grego para mim.

Recebi alta e retornei para o hospital de minha cidade com uma sensação de que há certas horas na vida da gente em que é inevitável resistir aos balanços e sacudidas da vida. Afinal, não havia mais o que vomitar. Ambos os motoristas das ambulâncias, a que me levou e a que me trouxe de volta, fizeram tudo para me proporcionar conforto durante a viagem.

Passei dias após por uma neurologista que prescreveu uma ressonância magnética, exame de sangue, enquanto o cardiologista receitou um holter e teste ergométrico. Estou aguardando ser chamado para realizá-los.

Refleti sobre o assunto e considerei a possibilidade de ter sido alvo da síndrome de Burnout, um apagão decorrente do acúmulo excessivo de estresse profissional.

Lembrei de apagão similar ocorrido com uma apresentadora da TV Globo recentemente, enquanto estava no ar. Bela, jovem e elegante na postura, acabou demitida pela direção de Redação. Quiseram talvez evitar riscos de novas ocorrências dessa natureza.

Seja esta ou aquela a causa do desmaio súbito, me parece oportuno citar que houve ganhos importantes e benefícios.

Na verdade, depois da síncope, me tornei uma pessoa diferente ou, talvez, a verdadeira pessoa que sempre deveria ter sido, mas que estava escondida sob camadas de imagens, pensamentos e sensações que estavam a me confundindo havia décadas.

De repente, me dei conta de que havia sido dedicado aluno de meditação raja yoga durante dez anos e feito inúmeras incursões em minha essência e realizado pesquisas com o objetivo de conhecer mais de perto a minha mente profunda.

Voltei a meditar diariamente e a sentir seus benefícios efetivos, como autoconhecimento, desapego de medos, enxergar a realidade com maior nitidez e a me relacionar com o meu inconsciente, buscando descobrir suas mensagens nos sonhos.

Percebi, assim como as pessoas da minha convivência diária, que, de fato, possa ter renascido ou me libertado das amarras das quais somos prisioneiros sem perceber.

Passei a encarar os fatos com um novo olhar e até mesmo rir de episódios que antes conseguiam me incomodar por horas ou dias. Um dos aprendizados relaxantes foi não levar a sério uma porção de coisas que podem tornar uma pessoa triste, deprimida ou angustiada.

Acho que o apagão geral funcionou como aquelas alavancas de ferrovias que, acionadas, desviam o trem para outras direções, rumos e paisagens.

Passei a ouvir e respeitar mais as pessoas, todas as pessoas, perdoá-las, compreendê-las, a respeitá-las tais como são e não como eu gostaria que fossem. A memória melhorou, assim como a percepção visual que ficou mais profunda. Muitas coisas que nem sequer reparava se tornaram visíveis.

Deixei de ruminar pensamentos desagradáveis sem fazer nenhum esforço contra eles. Por essa razão, acredito, minha mente ficou mais limpa e transparente. Passei a me enxergar melhor.

Tenho percebido o meu novo modo de ser pelas reações espelhadas positivas e bem-humoradas das pessoas nos meus contatos diários.

Essa experiência, em suma, me proporcionou uma nova visão da vida, dos seus fenômenos e mistérios. Uma coisa é certa: vou compartilhar cada vez mais o que tenho de melhor. Acredito que essa conduta despertará sentimentos de surpresas, como acontece quando conhecemos outros lugares, outras paisagens e outros povos, e os nossos sentidos são movidos a curiosidade! (Carlos Rossini é editor de vitrine online)

 

 

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