VISITA À IGREJA MATRIZ E A CONVERSA COM O SANTO
Hoje, depois de caminhar pelas ruas centrais de Ibiúna por quase duas horas, observando o movimento, num dia frio e cinzento, entrei na Igreja de Nossa Senhora das Dores, padroeira do município. Antes, observei que havia quatro padres conversando na praça da Matriz, próximos à entrada da casa paroquial. Parecia uma conversa sacerdotal animada, amistosa e tranquila, entremeada por risos.
Quando adentrei na igreja, e sempre entro pela direita da porta principal, não sei o porquê, me vi na nave, onde reinava um silêncio reverencial. Havia ali, observei, além de mim, três ou quatro pessoas.
Já havia retirado o boné da cabeça, em sinal de respeito que aprendi ao ver o comportamento dos outros na mesma situação desde quando eu era criança, e me dirigi lentamente por uma das alas laterais no fim da qual se encontrava a imagem de São Sebastião, em seu nicho, ao lado de um vaso com flores. As lâmpadas estavam apagadas. Havia apenas um vislumbre de luz natural que vinha das janelas laterais.
Então entabulei uma conversa com o santo. Embora parecesse que ele não me ouvia e permanecesse com a cabeça e os olhos voltados para o alto e indiferente, cri na fé. Na realidade, percebi que ele era todo ouvidos. Um escutador silencioso das profundezas da alma.
Bem que gostaria de revelar o teor de “nossa conversa”, mas ao passar ao lado do confessionário, decidi que seria melhor que nosso bate-papo ficasse entre nós como um segredo. É mesmo um mistério a conversa de um humano com um santo! Depois, cada um, quando entra na igreja tem seus próprios motivos. Percebi que o interior de um templo pode ser simplesmente um lugar de descanso, com leves ruídos que vêm das ruas.
Mas, seria injusto não compartilhar o que o santo disse com sublime compaixão:
— Jamais perca a fé ou abandone os seus sonhos.

Despedi-me do santo contente com nosso diálogo e me dirigi para um dos bancos da nave central, próximo do altar. E o que vi ali era diferente do que percebera outras vezes em que lá estive.
Em ambos os lados do altar, coberto por uma toalha branca rendada, há dois anjos com as asas abertas, curvados para o centro da mesa, cada um segurando um lampadário. Protegem simbolicamente os sagrados ritos ali celebrados.
No nicho ao fundo está a imagem da santa padroeira que muda de cor, conforme a tonalidade da luz que nela se projeta de modo intermitente. Em seu contorno se avista um vitral multicolorido com a representação artística do martírio da crucificação por que passou o Homem, filho de Deus, que pregou e inspirou o amor ao próximo há mais de dois mil anos.

Ao lado de Nossa Senhora das Dores estão mais dois anjos com lampadários e acima a figura de Seu filho, Jesus Cristo. Com os braços abertos em sinal de acolhimento, Ele flutua no ar.
Acima de Cristo, no ápice da ponta de um construto em formato de igreja, emerge a figura do Espírito Santo na forma de um pombo branco com asas abertas simbolizando valores como amor, alegria e paz.
No tempo em que permaneci dentro do templo senti, pelo menos por alguns instantes, o que nomeio de paz interior e agora, enquanto escrevo estas linhas, imagino que há diferentes razões para alguém ir à igreja fora dos horários das missas.
O mundo lá fora é conturbado, barulhento, agitado, uma fábrica de conflitos, uma correria muitas vezes sem nenhum propósito claro, até que certas circunstâncias surgem como ondas na rebentação, que nos jogam de um lado para outro impiedosamente e nos obrigam a buscar a verdade sobre o sentido da vida. (C.R.)
