COMEMOREMOS 166º ANOS DE IBIÚNA COM ALEGRIA, MA NON TROPPO

No editorial de sua edição de hoje (22), o jornal “Voz do Povo” foi categórico: “Ibiúna completa 166 anos sem o que comemorar”. Aponta questões de fundo como o terminal rodoviário que ficou para as calendas gregas, a avenida Marginal que mesmo recapeada se encontra cronicamente com buracos, assim como as estradas rurais, a maioria delas intransitáveis.

O jornal chama Ibiúna de “patinho feio” da Região Administrativa de Sorocaba, quando se compara com os demais municípios que também sofreram com as chuvas, mas que melhor se precaveram, razão por que suas estradas apresentariam melhores condições de mobilidade para a população.

Mas há um aspecto que merece atenção especial nos argumentos utilizados pelo jornal ibiunense, na conclusão de sua crítica: “Esperamos que, nos próximos aniversários, tenhamos mais motivos para comemorar porque, por enquanto, o que temos são falsas sensações de melhora.”

A pergunta que não quer calar a esse respeito é: quem está provocando as “falsas sensações de melhora?” Certamente não é a população, e sim uma máquina que se pauta por um esforço intenso e contínuo divulgar “alvíssaras” adocicadas o tempo todo, numa linha de autopromoção de natureza política sem precedentes. Aí entende-se que haja o motivo principal das “falsas sensações”, que, de alguma forma, temos tentado combater por meio de um jornalismo responsável e comprometido com o povo ibiunense.

O tosco calendário grego do terminal rodoviário esconde uma realidade cruel. Exatamente no dia em que a cidade vai comemorar 166 anos, se completarão 417 dias, ou 17 meses, que os usuários de ônibus do município, a maioria pessoas simples da área rural, pessoas de cabelos brancos, se submetem ao sol forte, às chuvas, ao vento e ao frio, numa estreita calçada na Rua Guarani. Para ali foram transferidos os pontos de ônibus que operavam no terminal rodoviário que entrou em reforma.

Vitrine online publicou notícias, editoriais e vídeos para chamar a atenção das autoridades municipais a fim de que procurassem garantir algum conforto aos usuários de ônibus, o que, é lamentável, não foi proporcionado até o momento. E, pelo que já se viu, esse respeito ao povo não se demonstra.

É natural, como acontece nos milhares de municípios brasileiros, que as autoridades queiram fazer agrados à população com shows musicais em praças públicas e entrega de obras públicas para mostrar seu desempenho claro, com objetivos políticos, sobretudo quando haverá eleições no próximo ano.

Até 31 de janeiro o município de Ibiúna, desde o início do governo há dois anos, já arrecadou mais de R$ 600 milhões. Por que, por exemplo, deixou pelo menos duas escolas municipais sem aula devido à falta de reforma em tempo hábil, prejudicando o ensino a centenas de crianças e adolescentes? Por que os professores mais antigos se sentiram tão desprezados pela administração municipal sobre a decisão da aplicação do piso salarial nacional?

Por que há tantos buracos tanto na área urbana quanto rural? Por que os serviços de tapa-buracos duram tão pouco tempo? Por que, como acontece rotineiramente, as estradas se encontram tão precárias?

Por que a Prefeitura se mostra tão generosa em ações de autopromoção e tão pouco transparente quando se trata de dar conta de problemas sérios que a população ou um raro veículo de imprensa aponta?

Para quem está habituado a ouvir a voz do povo, parece oportuno cravar aqui uma frase de longo alcance do tribuno Rui Barbosa, em relação aos sentimentos ocultos dos indivíduos: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

A foto desta matéria é de Marcos Camargo

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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