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A MULHER DIZ BAIXINHO “SANTO, EU VEJO VOCÊ” E ELE RESPONDE “EU ESTOU AQUI”

A fé é um sentimento singular. Cada pessoa tem o seu jeito de crer que  ultrapassa a própria razão. Pertence ao mundo invisível, mas pode se expressar em palavras e gestos. Porque hoje é o último sábado (31) do mês, numa tradição que se repete pelo 95º ano, a imagem de São Sebastião é trazida do Sertão por romeiros para a cidade. É grandiosa a festa em sua homenagem.

O santo vem. Seus pés flutuam sobre coloridas flores que dançam ao compasso dos braços e pés que carregam o andor e os acordes da banda. E os fiéis buscam vê-lo, sempre renovado e, mais uma vez, cada qual tem seu jeito particular de conversar com ele, como uma mulher devota que vive um singelo e pequeno milagre:

“Santo,…eu vejo você.”

“Eu estou aqui. Por isso, vim.”

“Sou como um espelho.”

“E, então, o que me diz?”

“Meu coração se agita de emoção.”

“O meu está como o seu.”

“Sinto amor.”

“Também o sinto.”

“Sinto fé.”

“Também o sinto. Sou como você.”

“Estamos conversando… é verdade?”

“Assim é, se você crê.”

“Por que não seria?”

“Estou feliz de ver esse povo de novo comigo.”

“O povo também o está.”

“O povo me vê como seu protetor.”

“Faz longa caminhada por mim.”

“Crê em mim.”

“Por isso me vê. Por isso fala comigo.”

“Ouço muitas vozes que vêm em minha direção.”

“Ouço cada uma delas com a pureza do meu coração.”

“E respondo a cada uma, de acordo com sua fé.”

“Obrigada, meu Santo.”

“Por nada, minha filha.”

“Sempre que quiser, acredite, me verá.”

“Sempre e sempre ouvirei você.”

“Amor e paz.”

O santo está ali no meio da praça iluminado em meio a quatro torres floridas cercado por uma multidão que vai ao seu encontro. De joelhos ou de pé tocam nas fitas coloridas ligadas ao protetor. Lágrimas escorrem de olhares na pequena paisagem da esperança íntima de que um desejo se realize.

No palco, após os cantos de recepção a São Sebastião, com a presença dos festeiros aos pares, autoridades, a missa campal toma o seu curso e é acompanhada pelo povo. É a quarta oficiada neste dia desde que o santo saiu do Sertão, por volta das sete horas da manhã, até chegar pouco mais das sete horas da noite na entrada da cidade onde é recepcionado.

Antes de partir de sua capela, distante trinta quilômetros do centro da cidade, onde os romeiros pernoitaram, houve a primeira missa. Segunda já aconteceu no bairro do Piaí, na capela da Fazenda Santa Maria e, por fim, na capela do Capim Azedo. É nesse momento, já nas proximidades da cidade, que a imagem é colocada no andor. Até então veio carregada nos braços dos romeiros.

Quando chega ao coreto na entrada da Avenida São Sebastião é recebido com carinho, aplaudido e lágrimas de esperança renovada, especialmente de mulheres. Fica ali enquanto os romeiros vão desfilando em direção à praça da Matriz, em suas bicicletas, carros, charretes, mulas, cavalos. Em todo o trajeto e na praça da Matriz já milhares de pessoas acompanham o cortejo e a chegada apoteótica do venerado santo.

Enquanto a missa prossegue e a imagem do santo recebe uma trégua de gente, mais fiéis, sempre mais mulheres do que homens, se aproximam e, de alguma forma, se conectam mentalmente com tudo o que o santo simboliza de amor e fé.

A algumas centenas de metros dali, na chamada área de lazer, outra multidão reunida diante do palco onde se apresentam bandas e duplas de cantores. Como no interior desse recinto é proibida a venda de bebidas alcoólicas, outra massa humana toma as duas faixas da avenida Vereador Benedito de Campos. Em meio a uma algaravia de sons altíssimos [de carros tunados] e de caixas de som de charretes, ali se vendem pilhas de cervejas em lata, espetinhos, lanches, cuja produção lança nuvens de fumaça que rodopiam no ar.

Moças com chapelões de cavaleiros dançam na rua, riem, se divertem e prometem seguir noite adentro. É dia de festa, de alegria e esta é uma das formas de comemoração que celebra a vinda do santo.

 

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