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ARTIGO – O QUE ACONTECE, IBIÚNA?

Aparentemente, não se vê sentido no que está acontecendo em Ibiúna. Nota-se uma situação caótica difusa que pede para ser interpretada, na medida em que não se percebe uma linha de ordenamento das ações públicas. Se até o momento a voz popular resume sua percepção na frase “a cidade está parada”, já há algo mais relevante do que isso que leva as pessoas a um estado de indiferença por falta de esperança, cansadas da persistência de um cenário que vem sendo visto há anos  e cujos personagens parecem estar repetindo à exaustão o mesmo comportamento no palco, na apresentação de um espetáculo não atraente.

É muito provável que esse status quo seja reflexo do desempenho dos protagonistas no andamento da peça, talvez fruto de um roteiro cujas páginas acabaram se misturando por um vento inesperado e, fora de ordem, confundem os atores. Nesse caso, em vez de um rumo articulado no desempenho bem definido dos papéis, busca-se no improviso dar um sentido que não pode ser apreendido e compreendido pela plateia. Até mesmo um crítico de arte experiente terá dificuldade para retratar uma estética que não existe a não ser por esparsos fragmentos, como um jogo de quebra-cabeça cujas peças se espalharam pelo chão.

Se as luzes dos refletores iluminam mal os locais do palco onde ocorrem as ações, o que se haverá de enxergar: sombras? A mínima esperança é que os diálogos sejam claros, audíveis e compreensíveis, ao menos isso, mas o receio é que exatamente isso é o que mais falta. Por alguma razão oculta, cuja motivação não pretendemos interpretar agora, opta-se por uma oclusão [isso não precisa ser consciente], quando a realidade clama por seu oposto, uma abertura corajosa para o mundo.

A evidente escassez de palavras – que permitem a comunicação, o entendimento e a compreensão -, não entendem ou fazem mal uso, deixa um espaço vazio que é preenchido pela imaginação, que precisa encontrar motivos ou sentido no que observam diretamente ou ouvem falar, porque nenhuma sociedade, por menor que seja, é capaz de existir sem um processo de diálogo que torna os indivíduos isolados em membros da comunidade. É sempre um erro grosseiro ignorar essa necessidade gregária do ser humano.

Naturalmente, podem-se cometer equívocos por falta de conhecimentos universais consagrados pela história da cultura e que não deveriam ser desprezados, pois constituem clarões para utilizar a razão em vez da emoção primária, além do que descortinam um horizonte que pode ser visto e facilita acertar o rumo, como acontece com os comandantes de aviões que fazem voos visuais a baixa altitude.

Essas linhas tanto podem ser interpretadas como críticas como uma forma de ajuda, dependendo da posição de quem as interpreta. Seu objetivo talvez seja mais elevado: refletir sobre um fenômeno que nos atinge a todos e que envolve personagens transitórios, enquanto a sociedade tem um caráter permanente e um compromisso com o futuro de sua gente. Se houver alguma pretensão aqui é o de provocar no sentido como fazem os médicos quando procuram ouvir e sentir o paciente para acertar no diagnóstico, indispensável para que adote as orientações que levam à cura.

Estas linhas são típicas de um outsider. Este é uma figura  que exerce o papel de não se deixar hipnotizar pela visão comum e busca encontrar uma perspectiva de estrangeiro para observar e interpretar os fatos. Existe o perigo de todos, ou a maioria absoluta, estarem sendo reféns um olhar coletivo, como se tivessem dentro do circo vendo a apresentação de um mágico ou ilusionista.  Desta forma, agiríamos como os personagens do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, um drama que nos agarra o olhar da primeira à última página e às vezes nos faz perder o fôlego, com uma descrição-narrativa aguda da condição humana de quem vive na cegueira. E isso, o livro aponta, atinge toda a sociedade e é apavorante.

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Carlos Rossini é editor

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