UM JORNALISTA IBIUNENSE – BREVE ENSAIO SOBRE A ARTE DE INFORMAR E RESPEITAR O POVO

Carlos Rossini, com o bom humor que as circunstâncias exigem, passou a se intitular ‘o jornalista de Ibiúna’.

Essa credencial é apresentada publicamente por amor a essa terra e ao seu povo, que labuta embaixo do sol e da chuva e, por meio de impostos que recolhe, como o IPTU, suporta integralmente o funcionamento dos poderes Executivo e Legislativo.

Portanto, as autoridades não fazem favor algum ao prestarem bons serviços, de saúde pública, por exemplo, e realizarem obras que gerem benefícios reais aos cidadãos, bem como cumprir a obrigação ética e constitucional de prestar informações transparentes à sociedade.

Recentemente, numa breve frase lida por centenas de pessoas no Facebook, ele cravou: “Jornalista ibiunense com muito orgulho. Salve [o] povo desta boa terra!”

Mas o que terá acontecido na mente desse veterano da imprensa, com passagem pelos mais importantes veículos de comunicação brasileiros, para se dedicar a assuntos de uma localidade com extensa área rural e ativa economia agrícola? Jornalismo sempre foi uma atividade desenvolvida em grandes metrópoles e centros urbanos.

Na generalidade dos casos, é mais comum que alguém saia de sua terra natal e vá para grandes capitais ou cidades, como São Paulo e Sorocaba, predominantes em nosso caso, para fazer, vencida a jornada acadêmica, uma carreira profissional nas mais diferentes áreas, como o jornalismo, que, muitas vezes, se constituiu saudável objeto de desejo para muitos jovens interioranos, apontado nos exames vestibulares, que precisam sair de suas terras para receberem uma educação universitária presencial, agora parcialmente redimidos pelos cursos EAD.

No meu caso fiz o roteiro inverso. Fui da capital para o interior e aqui me encontro numa adoção de temas locais e regionais, como uma forma de contribuir com as melhores práticas de um aprendizado baseado na realidade em que os fatos se dão, sem descurar do conhecimento teórico ensinado na Universidade. Por vinte e tantos anos lecionei diversas disciplinas relacionadas à comunicação social: jornalismo, relações públicas e publicidade. Tenho em meus guardados placas de prata com dedicatórias e quadro de mensagens gratificantes de ex-alunos, muitos dos quais passaram a trabalhar em jornais, revistas, emissoras de rádio e de TV.

Vindos de São Paulo, onde atuávamos em grandes jornais, meu irmão e eu lançamos aqui mesmo em Ibiúna há quatro décadas um jornal chamado “O Correio Regional”, com redação na rua XV de Novembro e circulação em Ibiúna, São Roque, Mairinque e Piedade.

Imagine a tarefa que nos atribuímos de percorrer uma extensa área territorial para levar notícias para a população dos quatro municípios. Sua circulação durou o que tinha que durar. Até hoje é um enorme desafio produzir um jornal impresso em qualquer uma dessas cidades, de modo mais acentuado em Ibiúna, devido a algumas singularidades tipicamente locais.

Em todo o mundo ocidental jornal vive de anúncios, coisa cada vez mais escassa. Sem essa fonte de recursos, veículo algum consegue sustentar sua ética e liberdade editorial, o que, notoriamente, o torna refém da nefasta influência de grupos políticos dentro do poder.

Uma grave consequência dessa realidade são os ‘entendimentos’ entre autoridades e veículos de imprensa, que resultam por parte destes no ‘compromisso’ de divulgar notícias sempre laudatórias e favoráveis até mesmo de assuntos sem status de notícia, ou, talvez ainda pior, ignorar fatos que podem revelar inoperâncias, omissões ou procedimentos inaceitáveis para instituições públicas.

Na realidade, sobretudo nos dias atuais, grande parte dos conteúdos das ‘informações’ lançadas para os munícipes pelo poder público são menos notícias e mais ações típicas da esfera da propaganda e da promoção, visando obter prestígios político-eleitorais.

Um propósito seguido à risca pelas administrações públicas é o fato de não quererem ser ‘contrariadas’ em seus propósitos, e serem avessas a divulgações ‘impróprias’ e ‘inoportunas’, que podem chamuscar a imagem do seu reinado. Quando isso ocorre, abrem um processo de algumas formas de represálias, entre as quais de se fecharem dentro de redoma e evitar conceder entrevistas ou dar retorno de informações solicitadas. Aparentemente, esse procedimento poderia ser interpretado como uso impositivo de poder quando, na realidade, é sinal de notória redução moral. Da mesma forma, aquilo que poderia ser interpretado como arrogância e prepotência, talvez não passe apenas de visões demasiadamente míopes.

O que se imaginava ser apenas uma incompetência para um desenrolar saudável da comunicação, pouco percebida por leigos, tem um ingrediente notório para quem é atento observador clínico: além das aparências, não há intenção de bem informar a população e sim de ocultar os fatos que se pretende manter fora do alcance do cidadão comum.

Isso não é nosso privilégio, pois se verifica em todo o país, graças ao DNA dos políticos que parecem ter aprendido que a verdade e a transparência não são moeda que permita uma troca vantajosa para os poderosos que se apresentam como donos do poder a cada quatro anos.

Chega a ser hilário observar a invariável manifestação de cada novo governo ao denunciar publicamente que o anterior deixou a cidade falida e que será preciso, antes de tudo, ‘arrumar a casa’, para dar a partida ao novo mandato. Como se observa, cada governante parece cumprir o repetitivo papel de deixar uma ‘bola quadrada’ como herança para seu sucessor. O risível é que prometem fazer uma auditoria, denunciar imposturas e possíveis improbidades, mas isso não passa de fogo de palha. Teatro político.

Manter em sigilo fatos que deveriam ser de conhecimento público se torna então uma prática banal. Nenhum poderoso se mantém perpetuamente soberano, porque o tempo passa e logo chegam as novas eleições e o tempo de esvaziar as gavetas e entregar as chaves, coisa que alguns nem fazem supostamente para evitar constrangimentos diante da plateia.

Por isso, não chega a ser surpresa que tais políticos procurem jogar na retranca, numa defensiva rude e medíocre, a correr risco de estar diante de um jornalismo sério, responsável e comprometido com a população que é, no final das contas, a grande vítima de atos equivocados ou escusos. Afinal, quem acenderia holofotes para possibilitar o entendimento popular?

Um chavão do folclore político reza que “cada povo tem o governo que merece”. Mas será que a resignação nunca terá fim? Os tempos mudam cada vez mais aceleradamente e as informações acontecem em rede possibilitada pela Internet que abriu uma incrível oportunidade de melhor discernimento, como ferramenta de uso universal de intercâmbio de informações.

A maioria delas são rasas, superficiais, deformadas, incompletas, desorganizadas e mesmo ininteligíveis. Mas, é fato que elas passaram a alimentar, mesmo aos tropeços motivados pela ignorância, uma nova percepção da realidade. Essa nova percepção da realidade se encontra em processo de gestação cultural e depende muito da qualidade da educação do povo largamente questionada pela intelligentsia brasileira e também da disponibilização de uma competente e responsável produção jornalística pouco encontradiça.

Mas a história tem demonstrado que fatos surpreendentes ocorrem quando menos se espera, a despeito de se fecharem acordos longe da observação pública. A melhor opção, portanto, como pregava a democracia em sua origem grega, seria ofertar o máximo de bem-estar ao povo, uma responsabilidade que não vem sendo cumprida a contento, como se verifica pelos fatos, em decorrência da visão liliputiana de políticos despreparados para os cargos que assumem.

Isto posto, se perceberam a foto que abre este ensaio, me dão licença que agora volto a passear com a Athena que, num período de sua criancice, destruiu tudo o que podia com seus poderosos dentes, mas que tem qualidades louváveis: é uma guardiã impecável, corre como galgo e dá saltos espetaculares e brincalhões quando vem dizer ‘bom-dia’ logo cedo e quando chega uma visita. (Carlos Rossini é editor de vitrine online)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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