IBIÚNA – NÃO É NORMAL PESSOAS ESTAREM CAÍDAS EM CALÇADAS
Nesta quarta-feira saí pela terceira vez para ouvir pessoas, homens e mulheres, em situação de rua na área urbana de Ibiúna.
Faz tempo, também na condição de sociólogo, tenho planejado ouvir essas pessoas porque elas são cidadãs, como todas as demais, apenas vivendo em condições de extrema vulnerabilidade, enfrentando a desumanização, fome e riscos constantes à vida.
Meu foco é uma visão humanista porque vejo esse cenário como um desafio tão grave quanto complexo a ser enfrentado pelas autoridades municipais responsáveis pelo assistencialismo social.
Hoje consegui ouvir algumas delas, depois de ser surpreendido com uma cena chocante na praça da matriz.
Enquanto muitas senhorinhas saiam da igreja, depois de uma missa, do lado oposto da praça dois homens se engafinhavam. Ambos seguravam em cada ponta uma barra de alumínio a fim de evitarem reciprocamente serem golpeados. Um deles, um homem alto, de cabelos vastos e cinzentos, já sangrava em virtude de um ferimento na testa.
E o repórter da TVUNA e da vitrine online que estava lá para ouvir as histórias de cada um com o objetivo de que possam ser, de alguma forma reconhecidos em suas específicas realidades, tive que ajudar a apartar a briga.
O susto foi grande. A mulher que está sempre por ali e conhece alguns desses personagens anônimos informa que sempre há conflito entre eles, em geral depois que bebem ou usam algum tipo de droga.
Um homem que estava sóbrio me chamou de lado para conversar. Ele veio de Goiás e está em Ibiúna há sete anos. Viu na minha camisa o logotipo da TVUNA e afirmou que já trabalhou na TV Globo, mais tarde soube que ele integrava uma banda conhecida.
Triste realidade. A pauta da entrevista era exatamente contribuir para que esses seres em situação de dor, de solidão, de desamparo possam se expressar e se permitir ter uma existência não como seres marginais, mas como entes que precisam de apoio, acolhimento, tratamento.
Ao lado da rodoviária, um jovem do bairro da Ressaca disse-me que é órfão de pai e mãe e que a tia, única parente não o quer em casa. Uma mulher de quarenta e um anos, na rua desde os nove, se queixou de falta de atenção.
Pedi informação à Prefeitura se existe um cadastro das pessoas em situação de rua. Assim que tiver retorno, atualizarei essa matéria, cuja pauta se encontra em aberto.
Ao refletir sobre as coisas que pude observar até agora, uma das características comuns a todos é exatamente a falta daquilo que chamamos de um lar como espaço de paz, amor e acolhimento emocional, embora vários deles tenham casas de seus familiares.
Na verdade, vivem de modo disperso e solitários se agrupando temporariamente com os seus congêneres. Sabem uns dos outros de onde vêm, os hábitos, os comportamentos.
A relação deles com o tempo impressiona no sentido de poder ou não existir, dependendo o estado mental, alterado ou não.
Em suma, sabe-se que são dezenas de pessoas em situação de rua na cidade e como sempre são vistas, acabam fazendo parte da realidade e, o que é o xis da questão, por dificuldades de mudança reconhecidas, sendo naturalizados como personagens públicas.
Mas, por isso mesmo, não se deve considerar normal um homem estirado numa calçada, ao lado do terminal rodoviário, e passar incólume com a sua presença no chão. (Carlos Rossini é jornalista, diretor da TVUNA e editor de vitrine online)
