ARTIGO – E AÍ, TÁ DIFÍCIL DORMIR? E VIVER ACORDADO?
Se você tiver dificuldade para dormir, fica se virando na cama, se tornou dependente de medicamentos de tarja preta ou de bebidas alcoólicas, se sente inibido diante de outras pessoas e está se sentindo estranho no mundo – este artigo foi escrito para você.
Para início de conversa, saiba que você não está sozinho. Embora não encontremos em consulta exatamente a quantidade de medicamentos psiquiátricos vendidos no Brasil anualmente, sabe-se, no entanto, que o uso desses medicamentos [antidepressivos, ansiolíticos e estabilizadores de humor] saltou de 19 milhões em 2013 para 44,6 milhões, em 2023.
Entre as diversas causas para esse cenário preocupante, que envolve todas as faixas etárias, se encontram as crises sociais, econômicas e sensações de insegurança vividas pela população.
Os medicamentos mais receitados são os antidepressivos (52,6%), ansiolíticos (28,1%) e os antipsicóticos (17,2%).
Existe uma variedade de doenças mentais, incluindo as de fundo biológico ou fisiológico, que não fazem parte temática deste breve artigo.
Aqui nos referimos somente a traumas e problemas emocionais que, supostamente, podem ser enfrentados e tratados com ótimas possibilidades de cura pelas terapias praticadas por meio da linguagem, desde que as pessoas estejam em condições básicas de expressividade.
Para fins de facilitar a compreensão do que aqui se propõe, vamos traduzir algumas definições relevantes de cada termo.
Doença, em sua origem, significa ‘sofrer’, ‘sentir dor’ e ‘aquilo que causa dor’.
Dor, por sua vez, é ‘sofrimento’, ‘angústia’ ou ‘dor física’. Em suma, podemos dizer que dor é um sentimento universal. Todos a experimentam de algum modo.
Transtorno é ‘virar ao contrário’, ‘perturbar a ordem’, ’desarrumar’, ‘contrariedade’.
Emocional é ‘movimento’, ‘comoção’[agitação, perturbação] ‘ato de mover para fora, agitar. São movimentos internos [em nosso psiquismo] que impulsionam para a ação ou expressão, com alta carga afetiva [emotiva]. É fluxo de energia. Causa agitação, comoção e reação.
De modo simples, se você, leitor ou leitora, atentar para os significados dessas palavras poderá, calmamente, entender o que pode estar por trás [em nosso inconsciente] dos traumas e problemas emocionais: dor, no sentido de sofrimento.
É preciso ressalvar que nem todas as emoções têm natureza negativa, e se manifestam em momentos de bem-estar, sentimentos de prazer e de alegria.
VAMOS AO PONTO
Feita essa introdução vamos agora ao que interessa. Na longa história dos problemas que geram transtornos e sofrimentos emocionais nos indivíduos, entram conhecimentos enfrentadores, no campo da filosofia, da medicina e das psicoterapias.
É importante reconhecer os esforços científicos, alguns de um voluntarismo heroico excepcional, para novas descobertas metodológicas como modos de cuidar dos problemas emocionais humanos.
SUPERAÇÃO DO BLOQUEIO
Desde que o criador da psicanálise, Sigmund Freud, deu à luz os resultados de seus estudos, a dor vem sendo apontada como um “bloqueio na história” narrativa de uma pessoa. É como se, impedida de fluir livremente, a pessoa se torna “incapaz” de continuar sua história [de sua existência neste mundo].
As buscas da cura nesse contexto contribuem para a liberação do cliente/paciente do seu bloqueio. É tão simples quanto verdadeiro!
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que está em alta com o sucesso dos seus livros, informa que a pessoa tem que “narrar o inenarrável” e estará curada “no momento em que se narra mais livremente”.
Em outras palavras, quando se liberta da “prisão” que a impede de se movimentar com liberdade no mundo.
O NASCIMENTO DA CONFIANÇA
Quando analisa a questão da escuta do cliente/paciente, o psicanalista Sándor Ferenczi define uma questão decisiva: “O paciente só pode confiar no terapeuta quando sente que sua dor está sendo verdadeiramente escutada e validada.”
O que as pessoas sentem, não é bobeira, e precisa de atenção respeitosa, com um acolher sem julgamento.
O mais importante nesse contexto [a terapia não é um lugar de conselhos prontos] é quando “a dor finalmente encontra uma linguagem”. A linguagem aqui é vista como o meio para a expressão e a cura. Ou quando o bloqueio se desfaz.
O SER COMO PROCESSO
Por fim, mas não menos importante, o filósofo Erich Fromm adverte: “A principal tarefa do homem na vida é dar à luz a si mesmo, tornar-se aquilo que ele potencialmente é.”
Segundo o autor, ninguém nasce pronto. A pessoa é um projeto em construção permanente, o que torna o tema da identidade pessoal essencial para quem busca viver uma vida de forma mais consciente.
E é exatamente essa palavrinha [consciência] a chave para o enfrentamento dos problemas dos seres humanos como estando no mundo. Fromm vai fundo:
“O nascimento biológico é apenas o início, pois a formação de uma pessoa autônoma, capaz de pensar, escolher e se responsabilizar por seus atos, exige um longo percurso de amadurecimento interior e de confronto com suas próprias contradições.” (Carlos Rossini é jornalista, diretor da TVUNA e editor de vitrine online)
