CADÊ O JORNALISMO DA NOSSA CIDADE?

Para as pessoas ingênuas como este escriba, a Globo News parecia uma fonte credível de informações jornalísticas, mesmo com seu jeito claramente elitista.

Depois que a emissora exibiu um “power point” tentando mapear conexões de Daniel Vorcaro, do caso Banco Master, e a apresentadora Andréia Sadi teve que fazer um “mea culpa”, reconhecendo o erro e pedindo desculpa aos telespectadores, sua imagem perante grande parcela da opinião pública brasileira foi para o brejo.

Em suma, exibir um gráfico que incluía membros do governo PT enquanto omitia nomes do Centrão e da direita envolvidos na trama, pegou mal. Cadê a objetividade e a imparcialidade, duas linhas mestras do bom jornalismo?

Mas, o jornalismo internacional, nacional, estadual e municipal nunca esteve na berlinda da crítica social, como agora acontece também em torno o poder judiciário. E sobre o poder legislativo federal, então, o que dizer?

Algo está podre e não estamos no reino da Dinamarca, mas no século da estonteante Inteligência Artificial.

A SERVIÇO DOS PODEROSOS

A informação a serviço dos poderosos sempre existiu, mas agora se tornou um fenômeno para lá de preocupante, quando se vê a derrocada do jornalismo dos grandes veículos de imprensa, por exemplo no noticiário da guerra no Oriente Médio.

O que chega até nós, quando chega, é o resto intragável de uma filtragem ideológica profunda, altamente deformante da dura realidade vivida por milhares de inocentes mortos por simplesmente estarem vivendo em suas terras de origem. Têm sido massacrados por bombas que caem como chuva sobre áreas povoadas por civis.

TODO MUNDO PODE SER JORNALISTA

Desde de 17 de junho de 2009, quando o Supremo Tribunal Federal – STF, por 8 votos a 1, decidiu extinguir a obrigatoriedade dos diplomas para o exercício de profissão de jornalista – entendendo que limitava a liberdade de expressão – literalmente qualquer pessoa pôde se intitular jornalista.

Claro que os empresários do setor vibraram, porque deixariam de ter certas obrigações trabalhistas, deitariam e rolariam como bem quisessem, ainda que a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a ABI – Associação Brasileira de Imprensa defendessem a exigência do diploma para a qualificação profissional.

Vamos repetir: o curso de jornalista tinha a proposta de qualificar as pessoas por meio de técnicas universais, princípios éticos e morais, para assim qualificar os seus atos.

Sem caminho de volta, havia sido “aberta a porteira” para quaisquer pessoas [algumas raras, sem dúvida talentosas], se aventurarem nesse campo de atividade, mesmo sem o devido cuidado ético e moral, mesmo sem respeitar regências verbais ou sintonizar corretamente sujeitos e predicados, sem cuidado com o uso da linguagem.

A atividade jornalística se espalhou no vasto território dos municípios como, escrúpulos à parte, um negócio sem alma, nada além disso. A situação piorou dramaticamente com a internet que ganhou uma infinidade de contribuintes inconsequentes. A mentira deixou de ter pernas curtas!

EM NOSSA CIDADE

Quem acompanha o jornalismo em nossa cidade saberá reconhecer que ele sempre andou capenga, especialmente por depender de recursos oriundos das autoridades ou de pessoas influentes politicamente para se manter, o que não é novidade alguma!

Isto acontece porque lamentavelmente falta ao mundo empresarial a perspectiva de que uma imprensa livre [e isso depende de independência financeira] é extremamente importante para contribuir para o funcionamento saudável de um grupamento social marcado também pela força das tradições.

Se os leitores ou telespectadores forem percebidos como consumidores dos seus produtos, mas, além disso, puderem desfrutar de informações de qualidade para a sua vida diária, social e culturalmente, haverá um nível de conduta mais saudável e promissor na sustentação de suas relações.

Mas, houve um gigantesco descompasso entre a necessidade de desenvolvimento cultural e os instrumentos de natureza educacional. 

O resultado é o que se vê: o que resta como jornalismo digno desse nome, além do que é praticado como reflexo dos poderes constituídos em pequenas cidades?

Pessoas constituem seus negócios no campo da comunicação jornalística sem o devido comprometimento com a verdade, porque o que interessa é o dinheiro que entra.

Algumas, mais coerentes, até chegam a reconhecer que não atuam dentro dos cânones universais da profissão, mas a praticam porque precisam sobreviver financeiramente. Simples assim! E, obviamente, não podem ser julgadas por isso. Mas elas sabem que fazem parte de uma encenação. Ou deveriam saber.

Reproduzem o que recebem pronto do setor de marketing das autoridades como parte do negócio. E agora, com as infinitas possibilidades de atrativas produções visuais, por meio de vídeos, ornamentam com imagens atraentes as movimentações dos políticos.

Como se pode ver, em matéria de jornalismo mesmo isso é mero detalhe. Notícia que pode de alguma forma comprometer a imagem de seus patrocinadores invisíveis certamente ficará em segundo plano para que não seja percebida. O povo que se dane!

A questão de fundo, e que pode servir como justificativa para essa situação, diz respeito a sobreviver numa sociedade que, por princípio, é injusta, desigual e submete todo mundo a ter que pagar as contas nos fins de mês.

Isso nos torna demasiadamente humanos, frágeis e envoltos na necessidade de manter alguns segredos.

Aparentemente, se observa que os cidadãos, ricos ou pobres, no fim das contas, sabem que notícias não enchem o estômago, porque elas se dirigem para o centro de referências para o comportamento social.

É preciso repetir que elas cumprem um papel decisivo em nossa forma de viver e de se relacionar uns com os outros.

Bem informadas, as pessoas podem se orientar no mundo de modo consciente e exercer tanto quanto possível sua forma de viver, mais saudável e menos neurótica.

No entanto, os poderosos sabem que o uso esperto da informação é um instrumento de controle emocional da população, a seu favor. (Carlos Rossini é diretor da TVUNA e editor de vitrine online)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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