VIVA O DIA MUNDIAL DO LIVRO!
Às três horas da manhã, caminhava do quarto ao corredor em direção à biblioteca. Hábito não raro.
Ao me aproximar da estante, repentinamente, senti-me envolto por uma energia circular. Isso aconteceu quanto olhei os livros e vi que estavam imóveis, silenciosos, enfileirados. Converso com eles habitualmente ou com os seus autores ocultos.
Mais desperto, lembrei-me que os livros começam a falar quando abrimos suas páginas, depois que nos seduzem com os seus títulos.
Parecia que estavam me esperando. E, lógico, eu os contemplei em silêncio.
No alto, numa ponta da última travessa do lado construído com tijolos pintados de branco estava pendurada uma antiga bengala do vovô feita de madeira maciça torneada, com mais de cem anos.
Às vezes eu segurava a manopla para ter a mesma sensação daquele velhinho cuja morte me fez escrever, em lágrimas, centenas de páginas que desapareceram dos meus guardados, como desaparecem as nuvens no Céu.
Aquele homem de cabelos curtos e alvos como algodão me inundava com o seu amor.
Por esse motivo, por mais que me chamassem e quisessem, não fui ver o seu corpo inerte no caixão, quando ele partiu como um anjo.
Sentia-me como se o tempo tivesse parado dentro e fora de mim. Ainda tento, até os dias de hoje, lembrar o que estava sentindo naquele momento. Talvez o que mais se aproximasse fosse a tristeza provocada pelo vazio de sua ausência.
Vô Francisco, esse era o seu nome, me pegava em seu colo, e dava-me a tomar a sopa matinal de pão inundado com café e leite, adoçado com uma colher de açúcar. Ele fazia cócegas na sola dos meus pés para me fazer rir. Assim brincava com seu netinho querido, filho de uma de suas filhas, minha mãe da qual guardo fortes recordações porque penso ter herdado dela a intensidade das minhas emoções que carrego sempre comigo.
Lembro-me como se fosse agora. Ele deixou o mundo deitado em uma cama na sala da nossa casa. Antes de partir, respirando suavemente, fechou os olhos como se estivesse dormindo. Depois, voltou a abri-los, dirigiu seu olhar aos parentes que estava ao seu redor e disse, com uma paz serena, que havia estado no paraíso.
Pediu a todos que ficassem bem! Dessa forma seguiria feliz em sua viagem para um lugar celestial, que a gente não consegue ver. É para onde apontam as pirâmides, as torres das igrejas, os minaretes e a direção dos nossos dedos quando juntamos nossas mãos e fazemos uma oração.
Descreveu um lugar maravilhoso, cheio de luz e vida em outra forma, pessoas indo de um lugar a outro, pássaros e borboletas sobrevoando tapetes multicoloridos de flores, rios de águas límpidas e murmurantes, num cenário de paz e tranquilidade, como uma dádiva de felicidade eterna.
Dito isso, seus olhos se fecharam com uma suavidade indescritível. Foi assim que meu avô desapareceu para sempre e passou a viver em meu coração na forma de lembrança de sua imagem que parece se tornar a marca do amor de todos os netos que tiveram a sorte de ter um avô como eu.
A bengala está lá em cima, pendurada no alto da prateleira, quieta, imóvel e silenciosa como os livros que me aguardam como bons companheiros de viagem nessa existência de abundantes mistérios, segredos e de fenômenos admiráveis.
Li, na íntegra, os dois volumes do denso e magnífico poema A Divina Comédia, de Alighieri; e Dom Quixote, de Cervantes. Jamais guardaria na memória a profusão de versos impecáveis e os fantasiosos devaneios, por suas originalidades na interpretação da vida como um espetáculo aterrador, dolorido e absurdo, e profundamente provocador de espantos e, não raro, estranheza.
A Divina Comédia e Dom Quixote, como o delirante Ulisses, de James Joyce, fazem parte da minha biblioteca, assim como milhares de outros títulos e autores que nos brindam com seus romances, poemas, filosofias, histórias, descobertas. Merecem aplausos todos os que escrevem livros e compartilham sentimentos, conhecimentos e experiências vividas ou imaginadas. Testemunhos de suas existências.
Declaro com simplicidade que a leitura é um dos meus grandes prazeres. É como saborear néctares como suponho eram servidos aos deuses no Olimpo.
Minha relação com os livros é intensa, contínua com um senso de curiosidade interminável, mesmo sabendo que o filósofo tenha concluído após refletir: sei que nada sei.
A busca por conhecimento é uma história sem fim. Ir aprendendo no dia a dia é uma condição humana necessária. Aprende-se o caminho ao caminhar, escreveu Neruda, especialmente com as quedas e outras dificuldades que se apresentam em todas as jornadas.
As dificuldades em cada passo é o que faz a gente crescer, ou chegar ao Paraíso, ou vencer os moinhos de vento ou penetrar profundamente na autarquia, o conhecimento de si mesmo forjado no dia a dia por meio da libertação das ilusões. O despertar atento da própria autoria. Escrever os próprios versos e prosas. A autodescoberta que pode demorar a vir, mas que se inscreve como talvez a maior aventura de um homem diante de si mesmo. A busca de si mesmo até o encontro do verdadeiro ser.
Como eu dizia, levei um choque de alta voltagem quando vi que meus amigos antigos, alguns de várias décadas, e novos companheiros estavam inertes nas prateleiras, pois os apreciava como entes eternos, imortais. Mas, como pude pensar nisso, se tudo é movimento e transformação, impermanência, como declama a milenar sabedoria búdica?
Dentro de mim o desespero começou a se intensificar e não sabia o que fazer. De quê adiantaria chamar por socorro, fazer respiração boca a boca com as lombadas, massagens cardíacas nas capas, injetar adrenalina diretamente em suas páginas, em cada início de capítulo?
De repente meus tímpanos são atingidos por um ruído vindo do telefone celular. Desperto do sono e do sonho. Sacudido pela madrugada real, levanto-me, calço a sandália e sigo pelo corredor em direção à biblioteca.
Eis que vejo todos os meus heróis e heroínas a postos e de prontidão para serem pegados com carinho e colocados diante dos meus olhos mais uma vez. Estavam íntegros e vivos como podem ser vivos os livros!
Sei que grande parte dos autores já se evolaram, mas nos deixaram suas obras escritas como valiosos presentes de suas infinitas aventuras no extraordinário universo das palavras que dão sentido à prodigiosa linguagem humana.
A propósito, encanta-me e guardo na minha rebelde memória o que escreveu o filósofo e professor russo Bóris Búrsov na biografia de Fiódor Dostoiévski, que mergulhou nas mais profundas águas da mente humana.
Ao retornar, por meio de extensos, surpreendentes e nexos entre os episódios, trouxe à tona uma vasta quantidade de pérolas indicadoras dos mistérios da mente humana que o puseram no mais elevado patamar da literatura universal, ao lado de outros autores que fazem parte da genialidade humana, e que superou tormentos existenciais extremos. Diz assim, vigorosamente, num retrato eloquente da condição humana, esse que é um dos seus mais cuidadosos biógrafos:
“Meu Deus! Quantas imagens, sobreviventes, criadas por mim, irão morrer, irão apagar-se na minha cabeça ou derramar-se em meu sangue como veneno.
E, se não puder escrever, eu vou morrer…Em minha alma não há fel nem raiva, gostaria de amar muito e abraçar ao menos alguma das pessoas de antes, neste momento. Isso é um deleite, eu o experimentei hoje ao me despedir dos meus entes queridos perante a morte…
Quando olho para o passado e compreendo quanto tempo perdi com equívocos, com erros, na ociosidade, na inabilidade de viver, como deixei de apreciá-lo, quantas vezes pequei contra meu coração e minha alma, meu coração se põe a sangrar. A vida é uma dádiva, a vida é uma felicidade, cada minuto poderia ser uma eternidade de felicidade.”
Essa preciosidade se lê na introdução do livro O Idiota, de Dostoiéviski. Seiscentas e setenta e nove páginas, que mexem com uma questão talvez perene na comunidade humana. Trata-se de um príncipe, uma pessoa pura, superior, que acaba sendo perante os outros considerado um idiota exatamente por sua bondade, pureza e amor ao próximo, numa sociedade que desenvolveu o mau hábito de corromper as pessoas comuns. O idiota, nesse contexto, e poderia ser qualquer um de nós, é um ser incapaz de se adaptar às circunstâncias adversas, num mundo impiedoso.
Mas, um dia, inexoravelmente, os livros vão morrer e desaparecer, como a finitude que acontece com todos nós. Serão reduzidos a invisíveis átomos dispersos para compor outros corpos na natureza, mas aí eu já não estarei presente para viver mais esse luto. Também deixarei de ser um livro!
Está por trás desse destino inevitável a tecnologia, como a celebrada inteligência artificial dos tempos atuais, que, historicamente, quando avança, e isso está acontecendo cada vez mais celeremente, provoca mutações decisiva às quais uns se adaptam e outros acabam capitulando.
Os primeiros livros, não custa lembrar, eram escritos em tábuas de argila e pedra, papiro, pergaminho e somente mais tarde passaram a ser feitos com papel, no século XV, com a invenção da prensa de tipos móveis. Agora se apresentam em telas digitais, no formato escrito ou vocalizado, o livro para ser ouvido.
É possível, nesse processo, que percamos a memória alienada às máquinas e elas funcionem como nossas projeções, removendo de nossa natureza aquilo que costumamos chamar de humanidade, palavra que soa como desejo sisífico, muitas vezes esquecida na vasta e profusa imensidão do último dicionário encarnado.
Enfim, talvez a máquina não nos extinga, como teme o subsolo da nossa mente, mas, sim, faça florescer um novo humanismo, porque sem a existência dos seres humanos a Terra talvez perca um pouco de sua graça e diversão ao acolher e alimentar essas criaturas tão imprevisíveis que buscam a felicidade, conceito que há milhares de anos desafia a compreensão do que é ser humano. (Carlos Rossini é diretor da TVUNA e editor de vitrine online)
