CRONISTA DA CIDADE – A FUNÇÃO DAS PALAVRAS NA SUA VIDA

Esta cidade pela qual me apaixonei, sobretudo por sua natureza, a conheci há muitos anos como pescador nas águas da represa Itupararanga, quando eram limpas e abundantes de peixes. Para quem não sabe, havia pescador que vivia da pesca na represa.

Tento desde então me adaptar aos seus hábitos e costumes, considerando suas tradições religiosas, e o jeitão do seu povo, que inclui milhares de trabalhadores na agricultura do agronegócio e familiar.

Como sou profissional cujo principal instrumento de trabalho são as palavras, a linguagem em suma, presto muita atenção aos maneirismos verbais incluindo alguns sotaques, especialmente quando parentes e amigos se encontram e se cumprimentam.

Descobri por acaso o ibiunês, um glossário com expressões típicas, empregadas no dia a dia, como importante patrimônio cultural.

“Largue mão” significa deixe disso; “correndinho”, rapidamente; “bardiá” carregar alguma coisa; “campiá”, procurar; “gente de quem”, de que família; “miano”, muito bêbado; “falando meu”, falando de mim, e “falando do seu”, do outro; “deu bão”, foi bom demais; “moiô”, deu errado; “deu buia”, deu confusão, e entre outras.

É digno de registro o uso da terceira pessoa quando a pessoa está reagindo a uma fala. Em vez de “entendi”,  ouve-se “entendeu”.

Há também um hábito notavelmente presente, sobretudo quando o diálogo se conclui entre as pessoas, o que se escuta muito no comércio local. É a expressão: “Deus abençoe!”

Com essas considerações à parte, igualmente tenho observado uma forte tendência ao que chamo de “cautela verbal”, quando procuro ouvir alguém para uma entrevista para a TVUNA ou vitrine online.

A maioria se recusa a falar supostamente por não querer “aparecer” pelos mais diversos motivos, incluindo timidez.

Então, o jornalista se torna um ambulante das palavras, ditas ou escritas, talvez acreditando que esse seja  um modo de contribuir para que uma das mais importantes invenções  humanas [a linguagem] prospere com fonte para a melhoria das relações interpessoais.

Se é verdade que os pensamentos, que antecedem as ações, são formados por meio das palavras, então há uma forte razão para crer que quanto maior for a nossa riqueza verbal, melhor será nossa capacidade para interpretar o mundo em que vivemos e estabelecer boas relações com ele.

CRONISTA DA CIDADE

(Carlos Rossini é diretor da TVUNA e editor de vitrine online)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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