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CRÔNICA – O ABANDONO DO LAR E O FIM DE UM CASAMENTO DE VINTE ANOS

Um dia desses, reencontrei um conhecido: homem alto, com menos de 50 anos, vinte de casado. Estava agitado por dentro e bastou que eu lhe fizesse uma pergunta: “Como vai?” para ouvir uma torrente de queixas. Que tivera o pior dos anos. Haviam roubado seu carro em São Paulo, estava sem dinheiro, tinha perdido o telefone por falta de pagamento e, finalmente, e mais grave, a mulher pegou os dois filhos do casal e inesperadamente abandonou o lar.

Nem todos os abandonos do lar têm como causa direta a falta de grana, mas que esse fator é contribuinte é uma realidade palmar.

Assim foi com este casal. Vinte anos sob o mesmo teto, filhos adolescentes. Marido mau humorado com os azares da vida e fazendo frequentes bocas de garrafa, perdendo a compostura no telefone, espinafrando a mulher com palavras rudes e intolerantes, jogando sobre ela culpas, até que um dia…

Um dia ela pega os filhos e vai embora. Sai da cidade e vai morar com uma irmã. Deve ter maquinado a solução, pois foi vendendo objetos de casa: televisão, aparelho de som, DVD, microondas.

Foi de sopetão, sem aviso prévio. Quando o marido retornou e viu a casa vazia de pessoas, foi checar até cair a ficha. Estava só e mal acompanhado. Sua cabeça, que vinha acumulando sucessivas perdas e as dívidas acumulando, virou o que o povo chama oficina do diabo.

A negatividade havia tomado conta dos seus pensamentos e de suas palavras. Quando perguntado por alguém, respondia: “Estou tentando sobreviver”. Acrescentava algumas maldições pelo que vinha sofrendo, mas nada dizia que lembrasse a mínima fé na vida, em si mesmo e nos outros. Estava isolado, visivelmente deprimido.

Agora, por exemplo, era incapaz de fazer um retrospecto de seu comportamento com a mulher e os dois filhos. Parecia ter desertado de suas missões básicas, sem ter a percepção clara do que lhe acontecera.

Sem rumo, deve ter abandonado sentimentos fundamentais, se anestesiado e passado a viver como um robô desalmado. Quando disse que o ano passado tinha sido terrível para ele ainda eu não sabia da atitude de sua mulher.

Então diante da seriedade da notícia, passei a ouvi-lo sem o riso com o qual o recebera.

Excomugou a mulher: “A gente vive junto de alguém por vinte anos e nem sabe com quem está vivendo”, disse. Sentia-se traído, amargurado e havia posto algumas de suas propriedades à venda para enfrentar as tempestades à frente. Agora conseguir dinheiro se tornava prioridade absoluta. Alguns homens nessas horas parecem querer virar o mundo de cabeça para baixo, tamanha é sua frustração.

Mas, confesso, vendo aquele grandalhão na minha frente senti compaixão. Parecia uma criança órfã perdida em uma cidade estranha. Nada podendo fazer de prático, esforcei-me para lhe dizer: “Comece uma vida nova.”

Quando nos despedimos e fui embora naturalmente refleti sobre a condição humana e as armadilhas que cada qual arma para seu próprio tropeção, sem ter ao menos noção dessa ameaça.

Por que, às vezes, parece que a pessoa segue a vida como se tivesse cega, pouco enxergando da realidade?

Às vezes, aprendemos muitas coisas sem nenhuma importância para a vida real. Um amigo jornalista da velha guarda me disse um dia: “A vida tem uma lógica simples e é viver.” (C.R.)

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