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NATAL – MUITO ALÉM DE UMA SIMPLES REUNIÃO DE FAMÍLIA

Entendo que muitas pessoas nem se dão conta da existência dos livros, mas confesso que essa é uma das minhas paixões. Nas páginas dos livros navego pelo mundo criado pela imaginação de homens e mulheres que nos brindam com suas agudas observações da realidade. E o fazem às vezes como se dessem à luz, com as respectivas dores dos partos, seus filhos que se soltam no mundo a caminho de olhos que possam convidá-los para uma conversa em que sempre se aprende algo novo!

Bem, ainda que considere afortunadas as pessoas que leem, compreendo e respeito aquelas que nem sequer lerão um único livre na vida, seja porque são analfabetas ou porque não lhes tenha sido dada oportunidade de sentir o prazer de dançar com as palavras, ideias, pensamentos e histórias que enriquecem a vida.

Feita essa breve excursão, informo que reli Reunião de Família, da magnífica escritora gaúcha Lya Luft, nada mais oportuno para o Natal, quando exatamente as famílias se reúnem para celebrar o nascimento do filho de Deus há dois mil e dezessete anos. Além das comidas e bebidas, as pessoas vivem um estado de graça inspirado em sentimentos encantadores com paz, amor, fraternidade.

O raio-X ou ultrassonografia da alma elaborada pela escritora vai fundo na alma humana, percorre caminhos psicológicos nem sempre revelados nas conversas cotidianas e descortina os conflitos que correm nas veias de uma família, descascando uma espécie de cebola cujas camadas provocam lágrimas ou mesmo uma angústia existencial comovente.

Sem fazer concessões a adocicadas soluções literárias típicas dos que veem o mundo sob lentes cor-de-rosa, Luft revela a crueldade de um pai com os filhos – e também com sua mulher – , um castrador da liberdade e do respeito que, como acontece na vida real, acaba velho e decadente e inútil para quem possa ter esperança de uma redenção. Isso não acontece! A vida nua e crua de uma família pode ser terrível quando há um impiedoso tirano dentro de casa!

Ir além disso pode estragar o prazer da leitura àqueles que possam se interessar por ela, sobretudo mulheres, na generalidade seres sensíveis e ligados a tudo que se refere a relacionamentos.

Por tudo o que acontece no fatídico dia em que a família se reúne, a romancista doloridamente conclui que nós, seres humanos, não passamos de pobres animais. De minha parte, escolho afirmar que nós, atores sociais, dificilmente temos consciência dos papéis que representamos em nossas interações diárias. Em geral, nos perdemos em nossos próprios limites egoístas e não percebemos com clareza o mal que causamos aos outros!

Um dos filhos, durante o jantar, já não podendo suportar a opressão do velho e decadente pai, finalmente abre o coração e a mente, ao fazer um balanço explícito de velhas e opressivas relações. Num determinado instante, já fora de controle, solta um grito alarmante, mas a personagem autora da narrativa, irmã do rapaz, de tão aturdida, não sabe ao certo que palavra exatamente foi ejetada no espaço.

Terá sido “mãeeeeee…! ou “Deussssss…!”? Os demais participantes do jantar também não sabem dizer o que exatamente foi gritado. Mas isso já não tem tanta importância, pois no subterrâneo de nossa intimidade, independentemente de nossa posição social, econômica, profissional, idade, em alguns momentos procuramos por nossa mãe ou Deus. Não nos sentimos completos; ao contrário, convivemos silenciosamente com uma carência, um vazio, de algo que nos falta ou perdemos. Talvez por isso, todos nos tornamos atores a interpretar papéis em relação aos quais nos faltou o devido ensaio ou talvez um diretor para nos mostrar o que fazer a cada instante. (Carlos Rossini)

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