DEPOIS DA SIPAT – ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PODERIA ENCARAR MEDO FUNCIONAL COMO DOENÇA MENTAL
A Prefeitura de Ibiúna está celebrando a 1ª Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho (Sipat) da história do município.
Como fazem as empresas tradicionalmente, deixa claro a intenção de promover saúde, segurança e qualidade de vida de seus cerca de 2.600 servidores. E essa á uma boa iniciativa!
A abertura da semana na manhã da segunda-feira (27) não poderia apresentar um tema mais feliz. Uma palestra sobre “Saúde Mental e Prevenção do Estresse”, destacando a “importância do equilíbrio emocional e do cuidado com a saúde mental no ambiente de trabalho”.
ADOECIMENTO
Uma leitora atenta de vitrine online, ouvida a respeito, como o autor destas linhas, observou: “Eu me preocupo muito porque tenho amigos que trabalham lá [na Prefeitura] e estou vendo eles adoecendo.”
O problema diz respeito exatamente ao tradicional e perverso ambiente de trabalho das repartições públicas municipais impregnadas por um clima que, de várias formas, imprime nos sentimentos das pessoas o mal estar de um medo difuso e persistente.
Obviamente, não se trata de uma marca exclusiva da atual administração, mas de uma sequência de hábitos automáticos que atravessa décadas e provoca problemas de natureza emocional às vezes graves no psiquismo dos trabalhadores.
Em suma, o medo crônico de sofrer alguma punição provoca erosões importantes na personalidade removendo a naturalidade nas atitudes, forçando as pessoas a estarem constantemente de prontidão para não serem alvos de alguma forma de depreciação profissional. Até os animais de estimação percebem quando o trabalhador chega em casa deprimido!
O medo e a cautela excessiva geram um transtorno crônico entre os funcionários públicos, por diversas formas de assédio moral. A pressão contínua, ainda que velada, gera estresse, ansiedade e alta incidência de esgotamento emocional (síndrome de burnout).
O medo de represálias impede denúncias de irregularidades e mantém as disfunções ocultas.
Alguns fatores podem afetar a saúde mental dos funcionários como assédio, sensação de insegurança, desempenho não reconhecido, perseguição partidária, relacionamentos complicados (às vezes doentios), insatisfação com o serviço e pressões de produtividade.
MEDO
O medo se traduz por sentimento de temor, inquietação ou ansiedade. Descreve alguém que age com excesso de cuidado por receio de errar aos olhos dos outros, sobretudo de chefias autoritárias.
O medo é ingênito nos seres humanos e pode ser inato e herdado. Trata-se de uma resposta automática do corpo que vem com a gente desde o nascimento para ajudar a proteger a vida.
Ele é fundamental para preservar a vida, ajuda os seres humanos e animais a fugir do perigo, antes que algo ruim aconteça.
Os dois medos mais comuns dos seres humanos na natureza são alturas grandes (como penhascos ou lugares altos) e medo de animais perigosos (como cobras e aranhas).
Mas, aqui falamos de medos gerados por relacionamentos humanos equivocados, abusivos, desrespeitosos, incongruentes com os objetivos de uma administração pública, cujo escopo é prestar serviços à sociedade que a mantém.
O medo como um fenômeno insidioso provoca sérios transtornos e também limitações nos comportamentos das pessoas, que perdem o senso de liberdade, de iniciativa e também de motivação de dar o melhor de si por falta de acolhimento e respeito. E é claro como a luz do sol, quando uma pessoa se sente insegura é isso que reflete no mundo ao redor.
Uma leitura sensível do perfil de adoecimento mental pode cientificamente demonstrar os danos provocados pelo medo consentido ou tolerado numa organização pública, nos prejuízos que isso acarreta na qualidade de vida tanto dos funcionários que fazem parte da população interna quanto da população à qual deve servir exemplarmente.
O grande drama final é quando o funcionário, de tanto dar soco na ponta da faca, resigna-se e submete-se às autoridades estabelecidas [na escala da hierarquia], como única forma de não correr perigo e risco.
Talvez seja exatamente nessa categoria de fatos que se encontre a lista de licenças médicas, como forma de se libertar de tormentos crônicos, ainda que temporariamente.
Por isso, uma proposta de realizar uma espécie de uma “sipat” de combate ao medo funcional poderia ser bem-vinda na programação das vastas boas intenções demonstradas pelo Paço Municipal. (C.R)
