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SE TODOS BUSCAMOS A FELICIDADE, ONDE E POR QUÊ, AFINAL, ELA SE ESCONDE?

Muitas vezes acordo pela manhã e abro os olhos para a natureza exterior: o sol, o céu, as plantas; ouço o canto dos pássaros. Pergunto em silêncio: mas o que é tudo isso? Quem sou eu? Dependendo de que distância estou de mim mesmo, não vejo sentido em nada, além de um buraco inefável e impreenchível dentro de mim. A falta que ela me faz será eterna, enquanto eu durar. Sei que assim será, não só para mim, mas para todo o gênero humano, pois só existe um palco onde há miríades de peças sendo interpretadas e infinitos os papéis.

A história da busca da felicidade [é até mesmo difícil defini-la] é tão antiga quanto a presença do homem na Terra. A tradição religiosa judaico-cristã fez o papel de consagrar a felicidade como inatingível neste mundo imperfeito sendo só possível no ambiente celestial, descartando seu desfrute aqui pelos seres humanos. Talvez vivamos mesmo da ilusão dessa busca eterna, sem encontrá-la. Mas, então, o que nos resta, se não conseguimos ser perfeitos como os deuses?

Na maior parte do tempo, a partir da Idade Média, a felicidade se tornou personagem abstrata, utópica, existente possivelmente em shangri-la e outros lugares paradisíacos, em ilhas, montanhas apartadas da mundanidade. Ou seja: longe da civilização

Talvez possamos [de fato isso é real] saborear momentos de bem-estar por estarmos em estado de amor, ou mesmo por saborear um morango silvestre ou nos alegrar com a chuva oblíqua que marca a janela com suas gotas ou mesmo por reconhecer a beleza de uma pessoa, ou da aurora ou dos ruídos da noite no meio da selva ou, por dançarmos, mesmo longe dos outros, ou por cantarmos no banheiro.

É tão difícil falar da felicidade, quando se tem a mínima noção do que nos aguarda o futuro inexorável. “A história da felicidade é, na verdade, a história dos modelos humanos que as sociedades elaboram”, reflete o historiador francês Georges Morois.

Autor do livro A idade de ouro – História da Busca da Felicidade [Editora Unesp, 2011], Morois sustenta que “esses modelos evoluem em função do contexto. Este se caracteriza hoje pela perda de referências, pela ausência de perspectivas de longo prazo, pela mudança permanente, pela desvalorização da razão e pelo domínio do consumismo; o modelo de homem feliz é, portanto, o consumidor que vive o cotidiano, adapta-se facilmente, segue todas as modas e possui as engenhocas indispensáveis, sem levá-las muito a sério.”

Vicente de Carvalho (1866-1924) escreveu um poema sobre a felicidade. É possível, por meio de uma leitura atenta dos seus versos, despertar para as ricas possibilidades que desconhecemos em nós de inventar novos agires no mundo, procurando conviver com os outros [que são reféns das mesmas circunstâncias] da melhor forma possível. Talvez, seja esse o caminho para experimentar algumas felicidades. Por que não? (C.R.)

Felicidade

“Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.”

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