DEPOIMENTOS DE LUANA ARAÚJO NA CPI DA COVID-19 SÃO DIVISOR DE ÁGUAS PARA A COMPREENSÃO DA PANDEMIA

Os depoimentos prestados pela infectologista Luana Araújo, por cerca de sete horas ontem (2) perante a CPI da Covid-19, em andamento no Senado Federal, constituem um divisor de águas na compreensão científica e técnica da maior pandemia que assola o mundo em um século. Suas palavras foram uma aula impecável sobre ciência, medicina, ética médica e cultural. Deixou claro, em nosso entender, a diferença entre o que se pode chamar de verdade transparente e responsável e a empulhação de origens políticas.

Lúcida, clara, firme, coerente, educada e elegante em suas exposições, recebeu elogios até mesmo dos senadores que compõem a base governista na CPI. O presidente da comissão, senado Omar Aziz, oposicionista, chegou a dizer que a doutora “trouxe um feixe de luz” para compreensão de uma questão de alta complexidade.

Araújo foi convidada a prestar depoimento por conta de ter sido convidada a ocupar o cargo de secretária especial da Secretaria Extraordinária de Enfrentamento da Covid-19 pelo ministro da Saúde, cardiologista Marcelo Queiroga, no dia 12 de maio; no dia 22 recebia a informação do mesmo ministro de que sua nomeação não mais aconteceria. Ocupou o cargo relâmpago que durou dez dias. A CPI queria saber exatamente o motivo dessa mudança brusca de atitude de Queiroga

Mineira, infectologista, Luana formou-se pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e mestre em saúde pública pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, instituição com 145 anos de existência, primeiro centro de pesquisa dos EUA, por onde passaram pelo menos 36 ganhadores do Prêmio Nobel. Luana foi a primeira médica brasileira a receber a Bolsa Sommer, oferecida pela Universidade.

Por mais que tenha sido questionada diversas vezes a respeito da causa e de quem partiu a sua “desnomeação” ou “desconvidação”, já que o ministro da Saúde disse publicamente em entrevista que tinha autonomia no cargo, Luana disse não poder responder essa questão por não ter sido informada.

Mas, os senadores oposicionistas, que constituem maioria na CPI da Covid-19, apresentaram uma dedução lógica de que se não foi o ministro Saúde teria sido em uma instância superior, chegando a atribuir a um “Comitê Paralelo” que assessora diretamente o presidente da República, Jair Bolsonaro, em suas decisões políticas também na área da saúde.

Para um cidadão atento aos fatos que ocorrem na política do Executivo Federal as razões emergem como bolhas que sobem à superfície das águas de um pântano.

A doutora Luana é uma cientista, médica, sem nenhum compromisso político com quem quer que seja e, deixou claro, independente em suas atividades em favor da vida.

Publicamente se posicionou contraria ao uso de hidroxicloroquina, cloroquina e ivermectina no tratamento da covid-19, trombeteada à exaustão por Bolsonaro. Chegou mesmo a criticar colegas de profissão que a prescrevem. Cloroquina e hidroxicloroquina tiveram a ineficácia para a Covid-19 comprovada cientificamente, esclareceu.

Ela declarou que o atual debate sobre o uso de cloroquina e de um pretenso “tratamento precoce” sem eficácia comprovada, tema de diversos momentos da CPI da Pandemia, é algo “delirante”. ‘

“Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. (…) “Todos nós somos a favor de uma terapia precoce que exista. Mas se ela não existe, não pode ser tornada saúde pública. Tratamento precoce é estupidez.  É como se a gente estivesse escolhendo de que lado da borda da terra plana a gente vai pular”, afirmou Araújo, que classificou a defesa do chamado “tratamento precoce” como um “iluminismo às avessas”. “Autonomia médica faz parte da nossa prática, mas não é licença para experimentação”, frisou.

Quando foi anunciada para ocupar o cargo de secretária no Ministério da Saúde, Luana declarou que sua função seria “coordenar a resposta nacional à Covid-19, em diálogo permanente com todos os atores: Governo Federal, estados, municípios, agentes públicos, sociedade científica, organizações internacionais [para algumas das quais ela presta consultoria em sua especialidade], imprensa e, acima de tudo, com a população brasileira”.

Segundo o jornal O Globo, ao comentar uma publicação de apoio ao uso de hidroxicloroquina, a médica disse se tratar de “neocurandeirismo” e destacou o Brasil “na vanguarda da estupidez mundial”. Após a publicação da reportagem, ela apagou a conta na rede social. À CPI a médica disse que cancelou sua conta, mesmo porque passou a receber ameaças.

A médica defende a ciência e a vacinação em massa. Em fevereiro desse ano ela deu a seguinte declaração:

“É a medicina, é o bom senso, é a ética, é o dever cívico. Então, você junta isso tudo pra fazer uma política de saúde pública que entregue às pessoas aquilo que elas precisam enquanto grupo. Então, quando isso é rompido por um interesse individual todo mundo sofre.” Defende igualmente uso de máscara e o distanciamento social.

“Se as pessoas começam a interagir umas com as outras, o vírus vai conseguir circular, então aumenta o número de casos. Se você olhar as imagens, por exemplo, de bares e restaurantes, as pessoas estão do lado de fora, em tese, em um ambiente aberto, mas muito próximas umas das outras porque estão bebendo e comendo e estão sem máscara. Então, existe uma falsa percepção de segurança que não é real”.


A doutora Luana reiterou a importância do método científico para embasar a tomada de decisões sobre o uso de medicamentos e a formulação de políticas públicas. Disse que o médico tem a autonomia para prescrever os medicamentos, mas também é responsável por suas decisões perante seus pacientes.

“Ciência não tem lado. Ciência é bem ou mal feita. Ciência é ferramenta de produção e conhecimento para servir a população priorizando a vida e a qualidade de vida”, disse.

Ela afirmou que a estratégia de combate à pandemia no Brasil precisa melhorar a comunicação pública sobre distanciamento social, o uso da máscara e a transmissão do vírus e implementar um programa de testagem em massa para identificar e rastrear as transmissões – tema ao qual ela se dedicou na sua passagem pelo governo. No contexto dessa declaração, a doutora Luana afirmou que “informação também é medicamento”. (Carlos Rossini é editor de vitrine online)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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