A RUA GUARANI E O HEROICO POVO IBIUNENSE

Pessoas comuns podem se tornar heroicas por questões circunstanciais, ou seja, dos fatos que acontecem diante de si ou ao seu redor. Uma das características dos heróis é o percurso de provações (sofrimentos) que surgem no meio do caminho e que são obrigados a enfrentar durante a jornada, que prevê uma volta por cima.

Com a licença poética que o assunto requer, o editor de vitrine online [que tem estado ao lado do povo que passou compulsoriamente frequentar uma estreita calçada da rua Guarani no centro de Ibiúna, sob o sol quente e chuva, permanecendo de pé para contar com os ônibus como meio de transporte para ir e vir de suas casas, para o trabalho, para a escola, para as compras nos mercados, para ir ao hospital, para o dentista, para pagar contas nas lotéricas e bancos, etc.] declara publicamente o comportamento heroico do povo ibiunense.

Esse mesmo povo, por décadas, igualmente teve que frequentar uma estação rodoviária em precaríssimas condições, sobretudo de higiene em seus banheiros, fora o ambiente em si esteticamente obsceno, problemas de falta ou atraso de ônibus, muitas vezes com os assentos cobertos de poeira oriunda das estradas esburacadas do município. Tudo isso conta como escore favorável ao heroico povo ibiunense.

É incrível como suporta as vicissitudes e se queixa em voz baixa diante de fatos repetitivos que parecem não ter fim.

Esse mesmo povo heroico tem pago um tributo alto ao longo de décadas de desleixo e de falta de cuidados humanos e gerenciais de sucessivos governantes locais que compõem uma roda viva que faz a mesmice parecer uma condenação ao sofrimento que alguns atribuem folcloricamente a uma imprecação que teria sido feita por um padre. Lógico que isso não precisa virar um mito, porque padres são instruídos a consolar e encher os fiéis de esperança, e não puni-los.

Mas há quase onze meses a se completarem na próxima terça-feira, temos uma nova gestão em nossa cidade e precisamos acreditar que está procurando fazer o melhor para seus eleitores e população em geral, se não por que permaneceriam alheios ao que acontece na realidade?

É verdade que o asfalto afundou, mas já está sendo consertado, não é mesmo? Se esqueceram que numa rua simples da cidade, em cuja calçada povoada de pequenas lojas, os usuários estão ao relento, sujeito ao sol quente, chuva, vento. Isso precisa mudar!

Todos que acompanham vitrine online – por vídeos ou notícias em suas páginas no Facebook – sabem as dificuldades a que passaram a ser submetidas para subir ou descer de um trivial ônibus naquele local. Veja o que disse uma dona de casa, ao reagir a uma das notícias da revista: “Imagina esperando ônibus com o meu bebê, que é especial, no carrinho de bebê!” Aliás, quando o asfalto começou a ceder todos os usuários passaram a ter dificuldades extras, sobretudo pessoas idosas, carregadas de sacolas de compra, e pessoas com algum tipo de dificuldade de locomoção.

Diante de tudo isso, com todo o respeito e pela primeira vez, a revista se dirige diretamente ao prefeito de Ibiúna: “Senhor Prefeito, sabemos, ou subentendemos ou presumimos, do seu propósito de fazer o melhor para a cidade e que, como filho da terra, sentirá orgulho de ficar na história como um bom gestor, apesar de todas as dificuldades de se gerenciar uma cidade tão grande e com dezenas de bairros. Mas resolva com a máxima celeridade possível esses problemas que temos apontado. Chame os integrantes do seu staff para uma reunião decisiva e determine uma força tarefa em favor do povo ibiunense.”

Em nossas andanças para escutar a voz da população, ouvimos, até mesmo de engenheiros da iniciativa privada, que a reforma da rodoviária poderia ser feita em duas etapas, de modo que uma parte do prédio que já entrou em reforma poderia ficar à disposição dos usuários e, quando ficasse pronta, então haveria um rodízio nas obras para a conclusão da outra parte. Nesta altura, isso já não é mais possível. Por que os nobres vereadores não chamaram uma audiência pública, que seria de grande valia para as decisões do Poder Executivo?

Outra sugestão do povo: por que não montaram tendas em sequência, banheiros químicos na chamada Área de Lazer da cidade, com espaço amplo para movimentação dos ônibus, para ali instalar a “rodoviária de transição”.

Daqui a dez meses é previsível que a atual gestão promova uma festa retumbante de inauguração do Terminal Rodoviário reformado e com uma nova roupagem. Desta vez o fato heroico será protagonizado pelo prefeito como mérito seu de relevo, mesmo porque a população teve de esperar por mais de trinta anos para que houvesse uma atitude há muito aguardada: reformar um monstrengo, a essa condição tornado por ficar anos a fio abandonado.

Tomara que uma luz numinosa faça chegar estas palavras aos ouvidos do nosso gestor e que, sobretudo, ele as encare com uma singela contribuição ao seu governo, não uma crítica conspirativa, em favor de todos os heróis do nosso cotidiano e que atendem pelo nome de população ibiunense. (Carlos Rossini é editor de vitrine online)

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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