SEM HISTÓRIA, SÓ NOS RESTA VIVER DE INFORMAÇÕES
Há muitos anos, eu era bem jovem e mais sonhador do que nunca, fiz um teste para ingressar no jornal “Folha de S. Paulo”, no qual trabalhei como redator.
Lembro-me de ter usado uma palavra no texto que escrevi, para sustentá-la com argumentos apropriados para a época: caos.
Hoje, novamente, enquanto fazia a leitura do livrinho A Crise da Narração do filósofo norte-coreano Byung-Chul Han, autor de inúmeros livros de pequeno porte, mas de grande intensidade, de imenso sucesso, a palavra caos surgiu em minha mente.
O autor está mostrando o que está acontecendo no mundo: a perda do hábito de contar histórias com começo, meio e fim, unindo passado, presente e futuro e, mais importante, criando um sentido para a vida das pessoas.
Ao invés disso, entra em cena a informação, que fragmenta o tempo e o resume apenas a alguns instantes do presente que tanto leva o indivíduo a uma pobreza de sentido quanto à perda da capacidade de compreender e escutar o outro.
Vamos direto ao fato: Han cita, como exemplos de informação, em conflito com a narrativa, likes, stories, feeds do TikTok, manchetes rápidas, dados de marketing e teorias do caos, como resposta do caos provocado pela enxurrada ininterrupta de informações.
Esse conflito entre narrativa e informação gerou uma crise que atinge a humanidade. É como se uma pessoa estivesse contando uma história para um grupo de pessoas e, de repente, parasse de falar e deixasse o local sem dar explicações.
Ou, ainda, em nossa opinião mais grave, são as informações geradas em uma abundância indescritível com o objetivo de persuadir, enganar, manipular ou distorcer a realidade. Isso está acontecendo de uma forma absurdamente estonteante.
Até mesmo por imitação, um número cada vez maior está copiando os modelos ofertados pela informação digital exacerbada pela inserção da inteligência artificial que, embora seja potencialmente útil, está sendo utilizada à exaustão como uma geradora da mais fantástica máquina de ilusão.
A narrativa, então, devido a um mundo saturado de informações produzidas ininterruptamente em uma infinidade de lugares, entrou em crise que está afetando a nossa compreensão do mundo, individual e coletiva.
O que está acontecendo em escala universal – guerras, perseguições impiedosas a imigrantes, imposições de poderes sobre países mais débeis, invasões a países e novas ameaças em curso – atesta que a terra está num processo de convulsão geopolítica preocupante.
Autoridades e instituições tradicionais têm seu respeito jogado na sarjeta e o chamado princípio do respeito que foi inventado para estabelecer um equilíbrio nas relações está indo para o brejo.
Não é à toa que a sensação de medo e insegurança cresce incessantemente na sociedade, por conta de crimes que ficaram banais e corriqueiros, sobretudo contra mulheres, crianças e adolescentes, como se tirar a vida dos outros fosse comparado a jogar uma lata de cerveja vazia no chão.Nesse sentido, o autor acerta: deixamos de contar e ouvir histórias, que nos fornecem o sentido das relações humanas saudáveis, e passamos a absorver informações como uma droga que age em nossos cérebros como um neutralizador dos sentimentos e emoções que fundamentam a nossa natureza humana mais nobre. (Carlos Rossini é jornalista)
