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PAPO CABEÇA – O QUE NOS CAUSA NOJO PODE SER UM DOCE PARA AS MOSCAS

Há um livro que releio agora. É a história de um anjo que desce à Terra para se encontrar, conversar e ensinar ao homem o que é o amor. Como ao anjos não têm sexo, eles amam de um modo totalmente metafísico. A conversa é longa e, dito de modo sucinto para economizar a visão do leitor, o/a personagem angélico, na verdade, é uma aparição que deveria ser suficiente para explicar ao ser mortal o mistério da vida.

CRIAÇÃO 2

Há, no entanto, um breve diálogo, em uma cena em que o anjo vestido de branco diáfano, com suas asas com quatro metros de envergadura, já não está presente. Em seu lugar há um monge [o homem, é oportuno dizer, está em busca da verdade] e nesse exato instante nada de erudição, mas uma forma que todo mundo pode entender, embora não possa ser dito na presença de crianças:

– Por que a merda cheira tão mal? – pergunta o buscador da verdade.

– Se você fosse uma mosca, a merda seria um doce. – comenta o monge

Esse pequenino trecho tem o objetivo de mostrar que existem muitos pontos de vista, na verdade tantos quantos são as pessoas e os animais e fatos na vida que são de tirar o fôlego, como virou moda dizer, dada a crueldade que existe no mundo, ainda que saibamos que no fim da história morrem ambos, o culpado e o inocente.

O monge ensina que em todo o fenômeno que envolve seres vivos tem três peculiaridades universais: a imperfeição, a impermanência e a ausência de um eu individualizado. Como assim, mas eu penso e logo existo, não é assim?

Quem viu o filme “Na natureza selvagem” sabe que no mundo natural não existem heróis ou vilões, isso só acontece no mundo humano, mas porque a natureza humana é sujeita a autoilusão e ao autoengano, gera mundos imaginários sem fim, como se estivéssemos sempre dentro de um sonho que parece não acabar, povoado de pensamentos e imagens que brotam constantemente de uma fonte invisível que todos temos dentro de nós.

Então, a busca da verdade, como a maior das aventuras existenciais, são poucos que empreendem, os filósofos, os cientistas, os religiosos, mas não consta que seja encontrada, exceto em casos raros, já que as coisas “ótimas” são raras de ser encontradas como um diamante. Ensinam os monges que é preciso se despojar completamente do ego, algo que na realidade não existe porque nada na mente é fixo e permanente, mas sim variável como os climas que envolvem a Terra. Somos apenas instantes, assim como a felicidade sentida, de acordo com depoimentos de sábios que já a experimentaram.

Fala-se então de exercícios para nos livrarmos dos apegos, um dos quais é geralmente difícil, que é orar para os inimigos. O objetivo é deixar a mente pura, sem nenhum tipo de sujidade, como ódio, rancor, inveja e outros sentimentos negativos dessa natureza. Há aí uma dificuldade porque é pouco compreensível para nós entender o que é bater palma com uma só mão. Além dessa dificuldade existe outra: estamos e vivemos entre esferas de sentido próprio e contrárias entre si: amor e ódio são duas delas. Então como bater palma com uma só mão, o que isso significa?

Como estar além da animalidade que temos em nós, da necessidade imperativa de sobrevivermos num mundo caótico, agitado e cada vez mais acelerado e competitivo? Alguns escapam e fogem da civilização, mas a maioria continua cumprindo uma rotina diária, como se fosse eterna. (C.R.)

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