DIA DAS MÃES E O TEMPO DE UMA JORNADA HERÓICA

Se um escritor não escreve os seus sentimentos genuínos por ausência de coragem, então algo está fora de lugar da criação. Por isso mesmo, neste Dia das Mães, ao contrário de anos anteriores, minha homenagem a essa data tão bela quanto uma flor de maracujá, preciso falar da perspectiva de um órfão na linguagem arquetípica.

Carrego dentro de mim, na forma de uma solidária empatia, a dor indescritível de um menino que perdeu prematuramente o maior vínculo afetivo de um ser humano: a presença do amor materno em nossa existência.

O útero materno é o lugar mais seguro e confortável da experiência humana de existir. Quando a criança nasce, vem à luz, ingressa num lugar em que imperam as incertezas de uma aventura que alguns classificam como absurda, por falta de sentido pelas coisas que acontecem, especialmente a morte de uma mãe cujo filho é uma criança.

A mãe e o filho desde o útero estabelecem entre si, sob o comando da natureza numinosa e invisível, uma relação simbiótica que define toda a jornada vital do filho, desde o princípio da gestação.

A geradora da vida – mãe – cumpre um papel crucial para que o recém-nascido tenha a sensação de segurança e de valor pessoal válidos para enfrentar os desafios por toda a vida.

Dizem que cada homem carrega dentro de si um desejo inconsciente de buscar o lugar em que foi concebido, o útero materno, independentemente dos arquétipos que lhe são predominantes, incluindo o de herói.

Para o órfão, esse sentimento é extremamente forte a tal ponto que ele busca preencher o vazio deixado pela morte da mãe, que ele passa a buscar em toda a parte. Trata-se de uma busca por resgatar o sentimento de segurança perdido.

Jung*** escreveu: “Quanto mais remota e irreal for a mãe pessoal, mais profunda e inexorável será a ânsia na alma deste filho, despertando aquela imagem primordial e eterna da mãe em nome da qual tudo que abraça, protege, nutre e ajuda assuma uma forma material” em toda a extensão da existência.

Uma dor que não pode ser aliviada, a menos que o conteúdo desse vínculo primordial se torne consciente.

“A pessoa sente que alguma coisa está faltando, alguma coisa que ficou para trás, no útero.”

Existe algo que se chama “luz da natureza”, também chamada de “mentora dos homens”, e é por ai que se admite que o órfão, agora não importa se criança ou adulto, pode encontrar o caminho de seu preenchimento, considerando que “o luto da perda do ente querido precisa ser vivenciado até o fim”.

“O órfão – informa Rose-Emily Rothenberg** – precisa aceitar sua realidade e não negar seus sentimentos e carências…e quanto mais entra na vida, mais afasta a influência da morte para longe de si.”

Em suma, “a solução final para o dilema do órfão é um retomada da ligação com a mãe natural em sua fonte arquetípica*. Quando a pessoa efetua uma conexão com o inconsciente, recebe o tão longamente ansiado apoio de um processo materno”.

Esse apoio talvez seja a maior conquista da jornada heróica que um ser humano empreende, sem que nós, atarefados no dia a dia pela sobrevivência, nem conseguimos perceber.

Mães e filhos aproveitem este dia para expressar amor entre si, pois este é mais valioso do que a pedra mais preciosa, porque tudo nesta vida é transitório e o momento presente é o único que de fato existe, aqui e agora, e passa logo. (C.R.)

*Arquétipo [daí arquetípico] é um conceito da psicologia utilizado para representar padrões de comportamento associados a um personagem ou papel social. A mãe, o sábio e o herói são exemplos de arquétipos. Esses “personagens” têm características percebidas de maneira semelhante por todos os seres humanos.

      **Rose-Emily Rothenberg é analista junguiana norte-   americana. Sua mãe morreu seis dias depois de seu nascimento.

*** Carl Gustav Jung foi um psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica.

Carlos Rossini

Carlos Rossini é jornalista, sociólogo, escritor e professor universitário, tendo sido professor de jornalismo por vinte anos. Trabalhou em veículos de comunicação nas funções de repórter, redator, editor, articulista e colaborador, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, entre outros. Ao transferir a revista vitrine, versão imprensa, de São Paulo para Ibiúna há alguns anos, iniciou uma nova experiência profissional, dedicando-se ao jornalismo regional, depois de cumprir uma trajetória bem-sucedida na grande imprensa brasileira. Seu primeiro livro A Coragem de Comunicar foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo no ano 2000, pela editora Madras.

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